Blog do Osmar Pires

Espaço de discussão sobre questões do (ou da falta do) desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira e goiana, em particular. O foco é para abordagens embasadas no "triple bottom line" (economia, sociologia e ecologia), de maneira que se busque a multilateralidade dos aspectos envolvidos.

My Photo
Name:
Location: Goiânia, Goiás, Brazil

É doutor em Ciências Ambientais, mestre em Ecologia, bacharel em Direito, Biologia e Agronomia. É escritor, membro titular da cadeira 29 (patrono: Attílio Corrêa Lima)da Academia Goianiense de Letras (AGnL). É autor dos livros: A verdadeira história do Vaca Brava e outras não menos verídicas.Goiânia: Kelps/UCG,2008. 524 p.; Arborização Urbana & Qualidade de Vida. Goiânia: Kelps/UCG, 2007.312 p.; Perícia Ambiental e Assistência Técnica. 2. ed. Goiânia: Kelps/PUC-GO, 2010. 440 p.; Introdução aos Sistemas de Gestão Ambiental: teoria e prática. Goiânia: Kelps/UCG, 2005. 244 p.; Conversão de Multas Ambientais. Goiânia: Kelps, 2005, 150 p.; e, Uma cidade ecologicamente correta. goiânia: AB, 1996. 224 p. É coautor da obra: TOCHETTO, D. (Org.). Perícia Ambiental Criminal. 3. ed. Campinas, SP: Millennium, 2014. 520 p. Foi Secretário do Meio Ambiente de Goiânia (1993-96); Perito Ambiental do Ministério Público/GO (97-03); e, Presidente da Agência Goiana do Meio Ambiente (2003-06). Recebeu da Academia Goiana de Letras o troféu Goyazes Nelly A.de Almeida no gênero Ensaio em 2007 e da União Brasileira de Escritores/GO o troféu Tiokô de Ecologia.

Tuesday, December 24, 2013

DECIFRANDO O ENIGMA GERALDO VANDRÉ!

O exílio de 45 anos continua! Geraldo Vandré foi obrigado a exilar-se com a edição do AI-5, em 1968, regressou ao Brasil em agosto de 1973, mas desde então está aprisionado em minúsculo apartamento na cidade de São Paulo.
Qual a causa? A ditadura judicial implantada na "República Federativa" do Brasil pós-AI-5. Trata-se da pior de todas as ditaduras, pois contra ela não tem para onde correr, a não ser para o próprio poder judiciário.
Profetizou Vandré: "Não volto a cantar no Brasil enquanto perdurar uma lei que exclui as demais", durante apresentação musical no Paraguai, em 1982: <http://www.youtube.com/watch?v=gx5IN4ld9Y4http%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3Dgx5IN4ld9Y4>.
Um dos ícones da MPB tocou o dedo na ferida aberta de uma democracia mal construída. O Brasil que não rompeu os grilhões do AI-5 vive a pior de todas as ditaduras, pois contra ela não tem para onde correr, a não ser para o próprio poder judiciário.
Este modo inusitado de ditadura salta aos olhos e às mentes de todos exemplificando a caça aos "petralhas", que se estende a todos que se aproximam de um projeto de poder popular e transformador: enquanto mafiosos confessos e contumazes estão soltos, outros que não são criminosos amargam a prisão em regime fechado.
A rigor de uma dura realidade estranhamente não discutida, Vandré está preso numa cela individual, em regime de isolamento, submetido a disfarçado Regime Disciplinar Diferenciado por falta grave, previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, por cometer o “crime de escrever e cantar poemas subversivos capazes de quebrar a ordem interna e da forte suspeita de participação em organização comunista internacional”.
Há pena mais cruel? Quase meio século de enclausuramento, em seu velho e acanhadíssimo apartamento na cidade de São Paulo! Por que não se inseriu no circuito comercial, depois do retorno? Poderia estar rico, vivendo nababescamente como tantos outros "ídolos" que se fizeram às custas dos anseios do povo, navegando sobre as libertárias dos anos de 60, 70 e meados de 1980.
Veja (de verdade) o exemplo, sem desmerecer o talento do artista citado, mas sua arte foi colocada a serviço do que, de quem e para quem? Não só este, mas muitos outros artistas, jornalistas, jogadores de futebol, sindicalistas, políticos estiveram a serviço do sistema criado pelo AI-5 e que perdura até hoje, de acordo com o que fala e protesta Vandré:
- “y ahora nosotros llamamos el gran aliado del gobierno militar”;
- "Muchas gracias al presidente chileno Señor Pinochet!"
Acesse o link e saberá quem é o artista. Todo fim de ano ele está na Globo platinada! Mas ele não foi o único.

Vandré é um poeta. As suas letras nunca deixaram dúvida. Linguagem mais direta impossível. Só mesmo muita paranoia golpista para ver outra coisa. Veja esta estrofe de "Disparada", uma das mais lindas do cancioneiro nacional:

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Mas o seu poema libertário o levou ao exílio. Depois, estranhamente anistiado, sem nunca cometer crime algum. Será que bastam versos como em "Cantiga Brava"?

No terreiro lá de casa
Não se varre com vassoura
Varre com ponta de sabre
Bala de metralhadora

Banido do Brasil e depois do Chile, apenas por compor e cantar a vida, a liberdade, a solidariedade.
Lembre-se de quão solidário foi Vandré para com Chico Buarque e Tom Jobim, no Festival Internacional de Música, no R. de Janeiro em 1968, pouco antes do seu exílio. 
A sua música "Para não dizer que não falei de flores (Caminhando)" conquistou o apoio de 100% do público do Maracanãzinho; mas o juri da platinada nascente Rede Globo escolheu a música "Sabiá", de Chico e Jobim, cantada por Cynara e Cybele do Quarteto em Cy. 
Quando foi anunciado o resultado, o público recebeu com estrondosa vaia. O que fez Vandré? Abraçou sua viola e chorou, sozinho. 
Geraldo Vandré durante o Festival Internacional de Música, no Rio de Janeiro, em 1968
Depois, ao microfone, antes de cantar "Caminhando", pediu apoio aos vencedores, respeito aos dois compositores e ensinou: "a vida não se resume a festivais". 
Não mesmo. Os festivais foram apenas um ensaio para o monopólio da massificação platinada, que domesticou artistas, produziu falsos ídolos, enriqueceu alguns, empobreceu a maioria. 
Nos Festivais Nacionais de MPB anteriores, promovidos pelas TVs Excelsior e Record, em São Paulo, Vandré foi consagrado vencedor com as canções:
  • "Sonho de um Carnaval" (do iniciante Chico Buarque), cantada por Vandré, em 1965;
  • “Porta-estandarte” (Geraldo Vandré e Fernando Lona), interpretada por Airto Moreira e Tuca, em 1966; e,
  • "Disparada" (Théo de Barros e Geraldo Vandré), interpretada por Jair Rodrigues, em 1967.
Em 1968, sob o patrocínio da Globo, alguém acredita que Vandré ganharia? Ora, a emissora do capo Roberto Marinho fez um acordo com os Golpistas de 1964: seria o mass media do Brasil, porta-voz da ditadura.
O poeta de "Caminhando" jamais ganharia um festival na Globo!
A estratégia da manipulação midiática, todos sabemos: enganar a opinião pública durante os anos de chumbo; esconder os assassinatos da ditadura; encobrir os crimes contra o erário; falsear a cultura e a arte; promover a injustiça!
Essa estratégia continua mais explícita nos dias atuais, protegendo os herdeiros e as viúvas da ditadura.
Historicamente se explica a exclusão de Vandré. O AI-5 foi editado logo depois da explosão de "Caminhando", cantada até hoje por todo manifestante de rua, como se viu nos grandes protestos de junho/julho de 2013, no governo Dilma (repare: no, e não contra o!). 
Com a abertura dos arquivos da ditadura, que veio a ocorrer só no governo Lula, soube-se que Vandré estava na mira da repressão, a sua música foi proibida. 
Exilou e deixou uma carta de despedida, na letra escrita em composição com Geraldo Azevedo:

Canção da Despedida

Já vou embora, mas sei que vou voltar
Amor não chora, se eu volto é pra ficar
Amor não chora, que a hora é de deixar 
O amor de agora, pra sempre ele ficar
Eu quis ficar aqui, mas não podia
O meu caminho a ti, não conduzia
Um rei mal coroado,
Não queria
O amor em seu reinado
Pois sabia
Não ia ser amado
Amor não chora, eu volto um dia
O rei velho e cansado já morria
Perdido em seu reinado
Sem Maria
Quando eu me despedia
No meu canto lhe dizia

Vandré escapou com vida da feroz repressão ditatorial dos países periféricos latino-americanos; sobreviveu à Operação Condor e à OBAN, esta financiada pelos especuladores da Paulista. 
Cinco anos depois voltou ao seu país, não dedurou ninguém, não fez campanha disfarçada para a direita, teve postura digna, como sempre na sua vida. 
Basta lembrar a postura do pseudoesquerdista Roberto Freire, eterno aliado da direita mais enfurecida contra qualquer governo trabalhista!
Vandré utilizou um álibi impressionante para ser aceito no Clube Militar, depois de três meses de consulta com o médico psicanalista do clube. A senha: "desde criança adoro aviões; a maior loucura dos homens é voar". 
Tirou brevê sem nunca voar. Conseguiu a proeza de ver oficiais e militares cantarem "Caminhando" no próprio ambiente armado. Assista a apresentação do sargento Lago, durante uma festa com militares e seus familiares, com a presença do poeta libertário: <http://www.youtube.com/watch?v=519eyCVEliY>.
Vandré compôs Fabiana, poema romântico, que inculcou no círculo militar como de inspiração na FAB. Na Semana da Asa de 1985 um coral de 300 cadetes cantou a música, com a presença de Vandré, que apenas a recitou:

Fabiana

Desde os tempos distantes de criança
Numa força sem par do pensamento,
Tem sentido infinito e resultante
Do que sempre será meu sentimento;
Todo teu, todo amor e encantamento,
Vertente, resplendor e firmamento.
Vive em tuas asas, todo o meu viver;
Meu sonhar marinho, todo amanhecer.
Como a flor do melhor entendimento,
A certeza que nunca me faltou,
Na firmeza do teu querer bastante,
Seja perto ou distante é meu sustento;
De lamentos não vive o que é querente
Do teu ser, no passado e no presente.
Vive em tuas asas, todo meu viver;
Meu sonhar marinho, todo amanhecer
Do futuro direi que sabem gentes,
De todos os rincões e continentes,
Que só tu sabes do meu querer silente,
Porque só tu soubeste, enquanto infante,
Das luzes do luzir mais reluzente,
Pertencer ao meu ser mais permanente.
Vive em tuas asas, todo o meu viver;
Meu Sonhar marinho, todo amanhecer.

Que ironia: um "esquerdista" (um militante metafísico) infiltrado no "aparelho da repressão". 
Falou de paz e amor aos treinados para a guerra interna, contra o povo, conforme cartilha dos aparelhos de repressão montados em todos os países latino-americanos.
Uma brincadeira de criança foi o salvo-conduto de Vandré. Gênio! 
Deu no que deu: o Brasil é uma democracia meia boca! O poder no Brasil não emana do povo; não é exercido pelo EMFA, nem pelo Planalto e menos ainda pelo Congresso. 
O real centro do poder nacional é o STF sob controle do monopólio da alienação, o PiG liderado pela Globo! E o financiador deste poder é o sistema financeiro, sediado em qualquer lugar do mundo, em especial, na Paulista.