Blog do Osmar Pires

Espaço de discussão sobre questões do (ou da falta do) desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira e goiana, em particular. O foco é para abordagens embasadas no "triple bottom line" (economia, sociologia e ecologia), de maneira que se busque a multilateralidade dos aspectos envolvidos.

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É doutor em Ciências Ambientais, mestre em Ecologia, bacharel em Direito, Biologia e Agronomia. É escritor, membro titular da cadeira 29 (patrono: Attílio Corrêa Lima)da Academia Goianiense de Letras (AGnL). É autor dos livros: A verdadeira história do Vaca Brava e outras não menos verídicas.Goiânia: Kelps/UCG,2008. 524 p.; Arborização Urbana & Qualidade de Vida. Goiânia: Kelps/UCG, 2007.312 p.; Perícia Ambiental e Assistência Técnica. 2. ed. Goiânia: Kelps/PUC-GO, 2010. 440 p.; Introdução aos Sistemas de Gestão Ambiental: teoria e prática. Goiânia: Kelps/UCG, 2005. 244 p.; Conversão de Multas Ambientais. Goiânia: Kelps, 2005, 150 p.; e, Uma cidade ecologicamente correta. goiânia: AB, 1996. 224 p. É coautor da obra: TOCHETTO, D. (Org.). Perícia Ambiental Criminal. 3. ed. Campinas, SP: Millennium, 2014. 520 p. Foi Secretário do Meio Ambiente de Goiânia (1993-96); Perito Ambiental do Ministério Público/GO (97-03); e, Presidente da Agência Goiana do Meio Ambiente (2003-06). Recebeu da Academia Goiana de Letras o troféu Goyazes Nelly A.de Almeida no gênero Ensaio em 2007 e da União Brasileira de Escritores/GO o troféu Tiokô de Ecologia.

Saturday, February 28, 2009

DESAFIOS À PRESERVAÇÃO DA ÁGUA,

por Osmar Pires Martins Júnior

O uso sustentável de bacias hidrográficas de mananciais de abastecimento público é um dos maiores desafios dos tempos modernos. O equacionamento do problema envolve fatores complexos que devem ser identificados e colocados numa ordem a mais correta possível para a obtenção de resultados satisfatórios.

Parte I

A bacia hidrográfica João Leite – BHJL, localizada na região central do Estado de Goiás, possui área de 765km². Compreende parcelas dos territórios de sete municípios: Anápolis, Campo Limpo de Goiás, Goianápolis, Goiânia, Nerópolis, Ouro Verde de Goiás e Terezópolis de Goiás. Dentro da bacia estão localizados mananciais de abastecimento público de várias cidades, incluindo o reservatório João Leite, em fase final de construção, que representa a principal fonte de água para abastecer a região metropolitana de Goiânia.
Da área total da bacia, 709km² estão situados a montante ou acima e 56km² a jusante ou abaixo, tendo como referência a cota inferior do terreno enquadrado como Zona de Proteção do Reservatório João Leite. O Decreto nº 5.704, de 27 de dezembro de 2002 criou a Área de Proteção Ambiental - APA João Leite, abrangendo toda a BHJL, sem, no entanto, delimitá-la. Posteriormente, o Decreto nº 5.845, de 10 de outubro de 2003, localizou e delimitou a área da APA, apresentando um memorial de caracterização. Este memorial, entretanto, caracterizou apenas a área a montante da barragem, deixando de fora a área a jusante.
Por esses decretos, a APA tem os objetivos de: proteger os recursos hídricos da bacia do João Leite; assegurar condições para o uso do solo compatível com a preservação dos recursos hídricos; conciliar as atividades econômicas e a preservação ambiental; proteger os remanescentes do bioma cerrado; melhorar a qualidade de vida da população local por meio de orientação e do disciplinamento das atividades econômicas; disciplinar o turismo ecológico e fomentar a educação ambiental, dentre outros.
O Plano de Manejo da APA, em elaboração junto ao órgão gestor da APA, a Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos – SEMARH, deverá ser implantado por portaria assinado pelo titular da pasta, de acordo com o artigo 12, I, do Decreto nº 4.340, de 22 de agosto de 2002, regulamentador da Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000 que dispõe sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC.
A preservação da água de abastecimento de Goiânia se insere no contexto de uma discussão pública sobre diferentes visões a respeito do uso e ocupação do solo da bacia hidrográfica e do entorno do reservatório João Leite. A elaboração de um diagnóstico ambiental que fundamente concepções adequadas de uso sustentável pode colaborar para desmistificar a visão de que o poder público tem a competência exclusiva de preservar a bacia e a qualidade da água do manancial de abastecimento.
O Estado, mesmo totalitário, não é onipresente. A política de comando-e-controle não tem a capacidade de imprimir poder de polícia suficiente para determinar o uso do solo numa bacia de área gigantesca. Uma lei, decreto ou portaria que estabeleça o que pode e o que não pode, abrangendo propriedades de domínio público e, sobretudo, privado, será medida inócua se não discutir a forma de uso e gestão, a ser compartilhada entre os proprietários e os diferentes níveis de poder público.
Essa é a conclusão extraída do exemplo das represas Guarapiranga e Billings, na região metropolitana de São Paulo. Os esforços de fiscalização, com o uso de força policial, helicópteros e delimitação de uma linha quilométrica de proteção, emitindo-se milhares de notificações, multas, embargos e até prisões de loteadores que desrespeitaram tal linha, não impediram a favelização no entorno da represa. No próximo artigo discorreremos sobre esse exemplo histórico, a partir do qual se pode extrair lições a respeito da proteção de mananciais de abastecimento público.

Parte II

A qualidade da bacia hidrográfica de abastecimento da população da metrópole goianiense não estará assegurada caso prevaleça uma visão exclusiva de comando-e-controle, pois se corre o risco de repetir o fenômeno que aconteceu na cidade de São Paulo entre a segunda metade da década de 1970 e de 1990. Esse exemplo histórico expôs as contradições sobre o uso e ocupação irregular do entorno das represas Billings e Guarapiranga, sobretudo na gestão municipal de Luiza Erundina (1989-92).
Os pesquisadores que discutiram o assunto na edição nº 23 da conceituada revista do Instituto Pólis, asseveram que, em meados da década de 1970, para a Grande São Paulo, prevaleceu a visão:
[...] de preservar ao máximo os recursos hídricos através de uma concepção de planejamento predominantemente tecnocrática, estabelecendo padrões de controle. Neste contexto, foi criada, em 1975, a Lei Estadual nº 898 de Proteção de Mananciais que representou, na época, medidas necessárias para estancar o processo de degradação das águas e representou um avanço no tratamento da questão, sendo efetivada por meio de rigorosa fiscalização [...].
Mas, apesar do reconhecido avanço proporcionado pela legislação de proteção de mananciais, ela provocou um efeito oposto, conforme afirmação contida na citada revista:
[...] a desvalorização imobiliária gerada pela própria legislação provocou o rebaixamento do preço da terra. A região deixou de ser interessante para o mercado imobiliário devido às várias restrições para ocupação normatizadas pela lei, tornando-se um lócus do mercado ilegal de loteamentos clandestinos. Neste sentido, a aplicação da lei teve um efeito perverso [...].
Os especialistas concluíram que terra barata aliada a grande demanda de moradia da população pobre de São Paulo montou uma equação ideal para loteamentos clandestinos. Os governos locais, como instâncias mais próximas da população, sofrem as pressões cotidianas por melhorias e investimentos urbanos. Por isso, alertaram os especialistas, a política municipal para uma região de abastecimento público somente se torna viável quando integrada a políticas ambientais mais amplas, articuladas a esferas estaduais e federais de governo.
No caso em discussão, a necessária integração entre os níveis de governo não ocorreu. As contradições entre o Estado e o Município de São Paulo foram assim expostas:
[...] Como a Lei de Proteção de Mananciais está deslocada da lógica de ocupação da cidade, passou a contrariar a própria legislação municipal, que permite densidades mais altas de ocupação do que a lei estadual prevê. Para o parcelamento dos terrenos nas áreas rurais, as duas leis estabelecem cotas diferentes para o tamanho dos lotes. Através de decretos do executivo municipal, alguns lotes vêm sendo transformados em zonas urbanas, ainda que não possam ser regularizados. Mesmo assim, na falta de alternativas habitacionais, a população de baixa renda adquire os lotes [...].
O resultado dos conflitos e contradições do caso histórico aqui exposto é conhecido por todos – aconteceu a favelização no entorno das represas Billings e Guarapiranga, sem nenhuma infra-estrutura de saneamento ambiental, de maneira que ocorreu o comprometimento da água de abastecimento público e a contaminação dos reservatórios responsáveis por 32% da água consumida na região metropolitana de São Paulo.
Com base na literatura especializada e nas experiências realizadas, é possível formular e executar políticas, planos, programas e projetos, baseados no ordenamento, zoneamento e gestão do território, de maneira a promover o manejo de bacias hidrográficas para o alcance de metas de proteção de mananciais de abastecimento público. A legislação e a regulamentação incidentes sobre o território-alvo do planejamento são os primeiros passos a serem seguidos por outros de igual importância para enfrentar o desafio da “crise da água” em nosso meio. No próximo artigo discorreremos a respeito.

Parte III

Uma questão prioritária é a demanda crescente para uma oferta limitada. Um nível razoável de satisfação do consumo doméstico e industrial requer uma demanda diária média de 250 litros por habitante. Porém, a disponibilidade hídrica no nosso meio é constituída de fontes de superfície que, para regimes hidrológicos continentais intertropicais, requer a preservação de uma bacia hidrográfica da ordem de 500km² para o abastecimento de uma metrópole do porte de Goiânia.
O explosivo crescimento populacional dos núcleos urbanos dos países emergentes e uma dinâmica populacional marcada por intensas necessidades sócio-econômicas pressionam a demanda, mas a disponibilidade para seu atendimento depende de uma oferta limitada e sujeita à variação das precipitações pluviométricas, do uso e manejo do solo e da infra-estrutura de saneamento ambiental da bacia hidrográfica. Afinal, dos 44 milhões de m³/dia de água captados das fontes superficiais nacionais, são devolvidos 39 milhões de m³/dia de esgoto, sem tratamento. Isto equivale a cinco vezes o volume de água depositado anualmente na Baía de Guanabara. Em resumo, as fontes de superfície são deplecionadas nas extremidades da captação de água e do lançamento de efluentes poluidores, assim como no manejo inadequado da vertente, impactando negativamente todo o ciclo da água.
As condições intertropicais se caracterizam pela variação da vazão de chuva e de seca, bem como dos fatores dependentes do clima, solo e vegetação, estabelecendo regimes hidrológicos bastante críticos para o abastecimento das metrópoles brasileiras. Esta avaliação pode ser feita pela comparação das vazões dos cursos d’água que abastecem as populações de algumas cidades. As metrópoles localizadas em regiões de clima temperado apresentam uma relação entre demanda e disponibilidade hídrica bastante favorável. A região de Paris com 10 milhões de habitantes é abastecida pelo rio Sena, que possui vazão média de 300 m³/s no trecho parisiense. Roma possui 6,5milhões de habitantes abastecidos pelo rio Tibre, que tem vazão média de 360m³/s no trecho romano.
A vazão disponível nas cidades do nosso País é pequena comparativamente às situações de outras partes do mundo, como vistas. A metrópole goianiense com 1,4 milhão de moradores é abastecida pelo ribeirão João Leite que possui vazão média de 11,2m³/s (a contribuição do Alto Meia Ponte e a possível contribuição do Dourados e do Caldas não altera esse quadro relativo). A grande São Paulo, com quase 20 milhões de habitantes, está localizada na bacia do Alto Tietê, que possui vazão média de 90m³/s. Em termos comparativos, as metrópoles brasileiras são relativamente populosas e demandadoras de água, embora os mananciais que as drenam sejam relativamente pouco caudalosos. Portanto, a relação entre oferta e demanda é bastante desfavorável. Em conseqüência, é real a perspectiva de agravamento da crise no abastecimento de água. Estima-se que, em Goiânia, mantendo-se as atuais taxas de crescimento populacional, nas duas próximas décadas, caso não se efetive programas de proteção dos mananciais, a demanda ultrapassará a capacidade-limite de oferta disponível na bacia hidrográfica de abastecimento.
Diante desse cenário, é fundamental implementar políticas de proteção dos mananciais da região metropolitana de Goiânia, a partir do planejamento, zoneamento e gerenciamento do território de toda bacia hidrográfica. As ferramentas para isso são o diagnóstico e o manejo sustentável do solo da bacia João Leite e não apenas do entorno do reservatório. A esse respeito, discorreremos no próximo artigo.

Parte IV

A bacia hidrográfica do ribeirão João Leite foi estudada por uma equipe multidisciplinar, constituída por profissionais experientes e habilitados nas áreas física, biótica e social do conhecimento. A equipe realizou o diagnóstico dos meios físico e biótico, sócio-territorial, saneamento ambiental e legislação, com o objetivo de subsidiar a formulação de diretrizes para o uso sustentável. A aplicação do conceito da sustentabilidade implica conhecer os recursos naturais e estabelecer possibilidades de uso do solo, de maneira a respeitar a capacidade-suporte da bacia e a preservação do futuro reservatório de abastecimento da metrópole goianiense.
A análise do meio físico demonstrou uma certa homogeneidade nos aspectos de clima, geologia, geomorfologia, declividade, solos e hidrologia no território da bacia estudada. O clima é do tipo tropical úmido, com estações de inverno seco e de verão, com chuvas torrenciais. Geologicamente, predominam rochas gnáissicas e granulíticas, impondo características geotécnicas homogêneas. A área é em geral muito plana. As declividades superiores a 30% ocupam o Planalto do Alto Tocantins-Paranaíba, na porção norte da bacia. As porções intermediárias e inferiores são ocupadas pelo Planalto Rebaixado de Goiânia, que formam interflúvios extensos e planos. Os solos apresentam predominância dos tipos Latossolos, que possuem boa capacidade de suporte ao manejo, mas suscetíveis ao processo erosivo sob condições denudacionais. O padrão de drenagem natural se relaciona à geomorfologia do terreno e manifesta predominância do escoamento superficial, com tendência ao assoreamento da bacia no seu trecho intermediário e inferior.
A cobertura vegetal original da bacia é constituída por diversas formações fisionômicas do cerrado, florestas de interflúvio e de galeria. A ocupação humana suprimiu grande parte da cobertura nativa e simplificou a paisagem natural. O fragmento remanescente mais expressivo está representado no Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco, que ocupa parte do território de Goianápolis e de Terezópolis; outros fragmentos remanescentes ocorrem nos territórios de Goiânia, Goianápolis e na Fazenda Santa Branca, em Nerópolis e Anápolis, bem como nos topos de morros existentes na bacia.
Os fragmentos de vegetação nativa são interligados por corredores migratórios que ainda restam nos fundos de vale. Eles são fundamentais para a existência e manutenção da fauna. Registrou-se a ocorrência de 29 espécies de animais, inclusive onça pintada e parda; de 153 espécies de aves na área da barragem, da Fazenda Santa Branca e no município de Campo Limpo, ao norte da bacia. A ictiofauna do curso principal do João Leite apresentou pequena variação na composição de espécies.
No aspecto sócio-territorial, o espaço geográfico da bacia é ocupado por atividades rurais de pecuária extensiva na área de montante e de agricultura mais intensiva no trecho intermediário da bacia, atividades urbanas e pela mineração em pequena escala, sobretudo extração de minérios classe 1. Em geral, o processo de urbanização é carente de adequada infra-estrutura e equipamentos sociais. As únicas cidades dotadas de saneamento ambiental são Goiânia e Anápolis. As parcelas urbanizadas da bacia com melhor estrutura de urbanização são as de Goiânia, como o Aldeia do Vale, mas ocorrem parcelamentos pouco estruturados como o Residencial Vale dos Sonhos.
Os principais fatores de impacto ambiental na bacia são decorrentes das atividades acima listadas: desmatamento, processo erosivo, assoreamento e contaminação da água por agrotóxicos e adubos sintéticos; lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento; e os causados principalmente pela extração de minérios classe 1 (argila, areia, cascalho) nos mananciais. A análise dos fatores que impactam negativamente os diversos componentes subsidiou uma proposta de zoneamento e de usos sustentáveis da bacia, sobretudo no aspecto do saneamento ambiental, a ser exposto no próximo artigo.

Parte V

A análise dos fatores que condicionam o saneamento ambiental é de fundamental importância para o zoneamento e o planejamento de usos sustentáveis da bacia hidrográfica João Leite, a principal fonte de água potável do goianiense. A qualidade da água do futuro reservatório é produto da qualidade da água na cabeceira da bacia modificada por diversos fatores que atuam no trecho que separa estes dois pontos. Isto é, a qualidade da água que a população goianiense beberá depende de fatores naturais (dependentes do clima, solo e rocha) e humanos (manejo do solo e saneamento ambiental) ocorrentes na área compreendida pelos municípios de Goiânia, a jusante, Terezópolis, Goianápolis, porção intermediária, e Campo Limpo, Nerópolis, sobretudo, Anápolis, a montante da bacia hidrográfica João Leite.
O município de Campo Limpo possui 5.596 habitantes, com área de 15.437 hectares, sendo 127 hectares urbanizados, situados dentro da bacia. O município de Goianápolis tem uma população de 11.159 habitantes e uma área de 11.832 hectares dentro da bacia hidrográfica, dos quais 82 hectares em zona urbana. Terezópolis tem 5.620 habitantes e toda área do município situa-se na bacia (10.674 hectares), sendo 137 hectares na zona urbana. Nerópolis conta com área urbana situada totalmente fora da bacia, mas com 7.640 hectares da zona rural dentro da bacia. Assim, ocorrem nestes municípios fatores mais diretamente ligados ao manejo inadequado do solo rural que interferem na qualidade da água do reservatório. Dentre eles, destacam-se: processos erosivos e assoreamento que causam a contaminação dos mananciais por resíduos de produtos químicos (agrotóxicos e adubos sintéticos, inclusive metais pesados), usados na agropecuária e que comprometem, principalmente, a qualidade das águas tributárias do córrego das Pedras, formador do braço direito do ribeirão João Leite.
Por seu turno, a parcela da bacia situada no município de Anápolis é de 19.076 hectares, dos quais 1.017 hectares são urbanizados com parcelamentos de alta densidade e perfil de baixa renda, num cenário típico da periferia das cidades brasileiras de porte médio acima. Apesar da existência de um sistema municipal de saneamento ambiental, com aterro controlado e tratamento de esgoto, o índice de clandestinidade do esgotamento sanitário nos bairros dessa região é muito alto. Ocorre destinação inadequada dos resíduos sólidos nos lixões e o lançamento de esgoto bruto, tanto de origem doméstica como industrial, diretamente nos mananciais que nascem dentro da cidade – córrego das Inhumas, Capuava, do Frigorífico, Mato Grosso – e deságuam no Jurubatuba, formador do braço esquerdo do ribeirão João Leite.
Portanto, as atividades humanas, urbanas e rurais, desenvolvidas na cabeceira da bacia do João Leite, contribuem decisivamente para a deterioração da qualidade da água e para a redução da vida útil do futuro reservatório. Quanto maior o número e quanto mais intensa a atividade de médio a alto impacto ambiental, sem o devido controle do lançamento de efluentes, pior será qualidade da água, onerando o custo de tratamento ou até mesmo comprometendo sua potabilidade. Os parâmetros de saneamento ambiental e biomonitoramento, realizados durante várias estações do ano, ilustram com clareza o quadro de fragilidade ambiental da bacia. A redução das alterações dos macroinvertebrados bentônicos e a presença de níveis de condutividade elétrica, ferro dissolvido, fósforo total, óleos e graxas, com pulsos elevados de turbidez e coliformes fecais, todos acima dos limites legalmente permitidos, comprovam que o reservatório a ser formado, caso persistam a atuação dos fatores impactantes já citados, está fortemente sujeito a contaminação e eutrofização da água de abastecimento, com ocorrências de florações de cianofíceas, potencialmente tóxicas e prejudiciais à saúde.
A localização de todas as fontes pontuais e difusas de poluição e o zoneamento da bacia como um todo, estabelecendo usos compatíveis com a vocação do solo e a capacidade-suporte dos componentes ambientais existentes, são os fundamentos para a implementação de um plano estratégico de desenvolvimento sustentável visando preservar a qualidade dos mananciais hídricos. A esse respeito, discorreremos no último artigo.

Parte VI

O planejamento estratégico da bacia hidrográfica João Leite é essencial ao alcance do objetivo de promoção do desenvolvimento sustentável em todo seu território, com 76.539 hectares, que se estende das cabeceiras, na Serra do Sapato Arcado, entre os municípios de Ouro Verde, Campo Limpo e Anápolis, até a foz no rio Meia Ponte, em Goiânia. O planejamento se fundamenta no diagnóstico dos aspectos físicos, bióticos, socioambientais e legais, expostos nos artigos anteriores. O zoneamento da bacia se submete aos critérios e restrições de uso do solo das seguintes zonas: faixa de proteção do reservatório de 200 metros a partir da cota máxima do lago a ser formado, com área de 1.740 hectares; Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco, como unidade de conservação de uso indireto e proteção integral da natureza, com 3.946 hectares; áreas de preservação permanente, englobando as faixas bilaterais de 100 metros contíguas às margens do João Leite e de 50 metros dos seus tributários, bem como de 100 metros das nascentes dos mananciais hídricos, perfazendo 7.455 hectares; solos cobertos com vegetação nativa remanescente, ocupando 9.832 hectares; e faixa de domínio das rodovias que cortam a bacia, com 6.772 hectares. Somando-se toda área com restrição ao uso do solo temos 29.368 hectares.
A área passível de uso sustentável, descontada a restrição citada, alcança grande extensão, tanto a montante ou acima como a jusante ou abaixo do futuro reservatório João Leite. A área a montante ocupa 70.875 hectares de sete municípios; a jusante, 5.665 hectares no município de Goiânia. Considerando a importância e a fragilidade ambiental do reservatório, o zoneamento deve estabelecer maiores restrições à ocupação e uso do solo na zona de montante, através de empreendimentos sustentáveis, de baixo impacto ambiental, de baixa densidade de ocupação e submetidos às normas e padrões de proteção dos mananciais de abastecimento público, como hotéis-fazenda, resorts, condomínios do tipo ecovilas, atividades agropecuárias de uso sustentável do solo, hípica, hipódromo, ecoturismo – de aventura e/ou ecológico, obras e equipamentos de extensão, pesquisa e ensino.
A área localizada a jusante do reservatório, que não foi contemplada no zoneamento do Plano de Manejo da área de proteção ambiental (APA) João Leite, necessita ser incluída no zoneamento, com o objetivo de proteger o manancial de abastecimento público. Portanto, é fundamental que o órgão competente do estado de Goiás, responsável pela administração da APA, promova a inclusão da área de jusante, na qual, são admitidos usos diferenciados para os solos rural e urbano do município de Goiânia. Nas macrozonas rurais propõe-se a regulamentação do art. 79 do Plano Diretor, admitindo-se usos de características rurais, com adensamento e impacto ambiental pouco significante. E na zona urbana, admitem-se usos de características urbanas diferenciadas, submetidas ao processo de avaliação de impacto ambiental, como empreendimentos sustentáveis, de baixa densidade e dotados de equipamentos adequados de controle da poluição. Estes empreendimentos poderão proporcionar efeito de zona tampão do reservatório contra a expansão e o adensamento urbano convencional, como parque de exposição agropecuária e parque zoológico.

Conclusão

Diante do exposto e em atendimento às atividades sócio-econômicas recomendadas no plano de manejo da APA João Leite, em estrita obediência às restrições de usos do solo aqui discutidas, são admitidas como passíveis de implementação, nesta bacia, as zonas de interesse turístico. Os artigos 170 e 180 da Constituição estabelecem o turismo sustentável e o zoneamento turístico, a partir de trechos do território com características semelhantes e usos compatíveis à vocação e à capacidade de carga do ambiente. Os impactos negativos gerados pelo afluxo turístico serão identificados e minimizados, e, os positivos, maximizados. Existem modelos, instrumentos, indicadores e metas de sustentabilidade que, adotados, permitem identificar e monitorar esses impactos.
O turismo sustentável, portanto, é uma alternativa válida à manutenção da integridade do produto turístico considerado, constituído pelos atributos existentes, como as paisagens naturais e o espelho d’água formado pelo reservatório, capaz de proporcionar benefícios socioambientais, melhoria, recuperação e proteção da bacia hidrográfica de abastecimento público.

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Comentários desta matéria:

(19) Fabiana Silveira (fabiana12gpa@hotmail.com quarta-feira, 26/11/2008 09:20)
Trabalho com o autor do artigo supra na UNIP, onde ministramos uma disciplina de Saneamento Ambiental no curso de enfermagem. Os seus artigos sobre a bacia do João Leite me despertaram para a importância da preservação das nascentes, orientando-me no desenvolvimento do tema de um projeto para o mestrado em Ciências Ambientais e Saúde na UCG.
Fabiana Silveira – professora da UNIP, Campus Flamboyant, Goiânia/GO.

(18) Luiz Bosco Sardinha Machado (advogadosardinha@yahoo.com.br sexta-feira, 19 de setembro de 2008 21:09, sábado, 13/09/2008 09:01, sábado, 6/09/2008 13:38 e segunda-feira, 1/09/2008 08:44)
Os artigos do professor Osmar Pires sobre os desafios da preservação da água foram publicados na coluna e no blog do Sardinha, no endereço: <www.colunadosardinha.blogspot.com>.
Bosco Sardinha – advogado, escritor e jornalista, Tribuna de Betim/MG.

(17) Jair Maranhão Costa (maranhaocosta@hotmail.com via e-mail, Opinião do Leitor, p.6, sexta-feira, 19/09/2008, Diário da Manhã)
A mãe Terra agradece
Parabéns, DM, pela publicação da série de artigos Desafios à preservação da água, de autoria do articulista Osmar Pires, autor de livros que são referência do curso em Perícia Ambiental em todo o País e não podem faltar na biblioteca de qualquer profissional.
O assunto é discutido por pessoa da área de saneamento ambiental e por especialista na área do meio ambiente, pois se trata de um profissional qualificado como doutor em ciências ambientais (UFG), mestre em ecologia (UFG), pós-graduando em administração de cooperativas (UCG), especialista em engenharia de irrigação (UFG), engenheiro agrônomo, biólogo-bacharelado e também licenciatura. É professor universitário de cursos de graduação na UNIP e de pós-graduação na UCG e no IPOG de Goiânia.
Dá para ver que esse professor tem bagagem para fazer artigos e até mesmo editar livros, tais como A verdadeira história do Vaca Brava e Uma cidade ecologicamente correta.
João Maranhão – Pós-Graduando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo Instituto de Pós-Graduação (IPOG).

(16) Leonardo Rodrigues Moraes (leonardomoraes@ipoggo.com.br via e-mail, Opinião do Leitor, p.6, sexta-feira, 19/09/2008, Diário da Manhã,)
Sustentabilidade
Os artigos do prof. Osmar Pires sobre os desafios à preservação da água, como ocorre também em outros assuntos ambientais, contribuem com nossa "labuta" pela defesa da sustentabilidade!
Leonardo Moraes – professor M.Sc., diretor Pedagógico do Instituto de Pós – Graduação (IPOG) – Goiânia/GO.

(15) Norma Costa (normadama@yahoo.com.br via e-mail, Opinião do Leitor, p.6, 19/09/2008, Diário da Manhã)
Água sob suspeita
Tendo em vista os artigos do professor Osmar sobre desafios à preservação da água, torna-se oportuno requer esclarecimentos a respeito do mau cheiro da água em Goiânia. Já fazem mais de duas semanas que estamos pagando para usufruir uma água malcheirosa e com gosto igualmente ruim. Afinal, que alga é esta [segundo o noticiário, uma cianofícea, produtora de uma substância, geomina] que falam que se desenvolveu no reservatório?
Norma Daisy M. Costa Gomes – Goiânia/GO.

(14) Argemiro Pina (pinamorim@yahoo.com.br sexta-feira, 19/09/2008 11:22)
O artigo sobre os desafios à preservação da água, do articulista Osmar Pires, representa a palavra, que deve ser ouvida, de um especialista na área do meio ambiente e do saneamento ambiental. Conheço o autor há mais de vinte e cinco anos. Sua competência acadêmica já me fora apresentada à época da faculdade. Fiz (tentei fazer) – no início da década de 80 – um ano e meio de Agronomia e, nas aulas de Zoologia, ele era o professor-monitor. Percebíamos que estávamos diante de pessoa privilegiadíssima na personalidade e capacidade intelectual. A partir daí, continuei a distância, mas acompanhando sua trajetória política (no exercício de órgãos ambientais) e profissional (agora, como escritor). No livro A verdadeira história do Vaca Brava estão registrados testemunhos meus e de muitas outras pessoas sobre sua trajetória e seus feitos na área do meio ambiente. Fui, ainda, professor de sua filha, Ludmila e, agora de seu filho, Diogo; exemplos de educação ímpar.
Argemiro Pina – professor do Colégio Ávila.

(13) Flávio Aguiar (flavio.aguiar@brasilata.ind.br domingo, 14/09/2008 20:26)
Compartilho as preocupações do articulista sobre os recursos hídricos de abastecimento público.
Flávio Aguiar – Pós-Graduando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo Instituto de Pós-Graduação (IPOG).

(12) Iracema Dantas (echiquefalarportugues@hotmail.com domingo, 14/09/2008 12:48)
O artigo acima nos remete ao ano de 1991 quando, na abertura do Congresso da ABES, o então presidente da entidade, prof. Jadson Araújo, disse: "a 3ª guerra mundial será por causa da água". Pelo visto, ele tinha razão.
Acompanho os textos e principalmente o trabalho do articulista para garantir nossos recursos hídricos. Continue contando com minha admiração.
Iracema Dantas – Goiânia/GO.

(11) Gustavo Mendanha (jornalismo@ecogeraes.com.br quinta-feira, 11 de setembro de 2008 09:04)
O artigo sobre os desafios à preservação da água é muito interessante. Parabéns ao autor.
Gustavo Mendanha – diretor de Redação Principal Editora - Revista Ecogeraes.

(10) Erenice Costa de Alencar (erenicealencar@hotmail.com quinta-feira, 4/09/2008 11:23)
Manifesto agradecimentos ao DM pela publicação e congratulações ao articulista, pelos artigos Desafios à preservação da água, que nos proporciona abordagem socioambiental acerca de assunto importante e crítico para o futuro da humanidade.
Profª. Erenice Alencar – Câmara de Orientação Acadêmica do Curso de Pós-Graduação em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental da Universidade São Marcos – São Paulo/SP.

(9) José Geraldo Nogueira (jgn@sic.goias.gov.br quarta-feira, 3/09/2008 08:53)
Parabéns ao articulista pelo seu trabalho e pelos artigos Desafios à preservação da água, publicados pelo DM. Desenvolvo um trabalho pela Faculdade de Tecnologia Senai, em Anápolis, sobre o Córrego Cascavel, que corta Goiânia. Estou muito preocupado com o problema água, que na verdade não deveria ser problema e sim solução, mas esta depende da mudança da relação homem x natureza. Precisamos fazer alguma coisa que altere esta triste história de que o homem acaba com tudo.
José Geraldo – Técnico da Secretaria da Indústria e Comércio – SIC/GO, pós-graduando da Faculdade de Tecnologia Senai Roberto Mange, Anápolis.

(8) Luiz Augusto da Costa Porto (luau@cultura.com.br quinta-feira, 28/08/2008 14:42)
A série de artigos sobre os desafios à Preservação da Água me interessou muito. Parabéns.
Luiz Augusto da Costa Porto – doutor em Biologia, professor da UCG.

(7) Leonardo Aguiar Morelli (aguiarmorelli@hotmail.com quinta-feira, 28/08/2008 08:49)
Gostei muito do artigo Desafios à preservação da água de abastecimento público (III), que foi publicado em nosso portal, após autorização do autor, por iniciativa do Instituto Defesa da Vida, uma ONG que desenvolve Câmaras Técnicas em Brasília e organiza cursos e palestras em todo o País.
Leonardo Aguiar Morelli – coordenador-geral do Movimento Grito das Águas e do Instituto Defesa da Vida http://www.defesadavida.org.br.

(6) Josias Dias da Costa (josias.mineirense@gmail.com quinta-feira, 28/08/2008 06:32)
O artigo supra nos enseja a oportunidade de questionar sobre a propaganda feita no governo Marconi Perillo de que o rio Meia-Ponte estava despoluído. Isso não é o que se vê ao atravessá-lo na BR São Paulo-Brasília e na GO-010, onde se situa a empresa Itambé. O aspecto da água é muito ruim e a fedentina é lastimável.
Josias Dias da Costa – Goiânia/GO.

(5) Prof. Jarmuth Andrade (prof.jarmuth@yahoo.com.br quinta-feira, 28/08/2008 06:30)
Agradeço aos amigos os apoios, colaborações, artigos e algumas denúncias de comunidades prejudicadas pelos problemas ambientais. Para todos que se interessam pela recuperação e preservação dos nossos rios, ribeirões, córregos e lagos, temos publicado no blog SOS Rios do Brasil alguns relatos de comunidades que estão defendendo com muita garra as suas águas. Destacamos o artigo Desafios à preservação da água de abastecimento público (III), do professor Osmar Pires, publicado no endereço: http://sosriosdobrasil.blogspot.com/2008/08/preservar-gua-de-abastecimento-pblico-o.html.
Prof. Jarmuth Andrade – físico e ambientalista, é presidente do Instituto SOS Rios do Brasil, Campos do Jordão/SP.

(4) Itamar do Posto Caibi (postocaibi@brturbo.com.br quarta-feira, 27/08/2008 09:06)
Quero comunicar que estou lendo os artigos sobre os desafios à preservação da água para o abastecimento público. Fico muito contente em receber informações das ações ambientais desenvolvidas na capital humanitária que está se construindo em Goiânia.
Itamar do Posto Caibi.

(3) Euler Amorim (e.amorim@uol.com.br quinta-feira, 21/08/2008 15:18)
Preocupante é a situação dos mananciais de abastecimento público. Pela minha visão de leigo, parece-me que as ocupações de beiradas de rodovias, ferrovias, morros ainda têm conserto. Entretanto, quando se fala em questões hidrográficas, o fato é de arrepiar.
E o pior: não é somente em Goiânia. A situação reinante nos demais municípios preocupante quanto à ameaça de crise no abastecimento. Por isso, creio que no artigo supra seria cabível a substituição do termo "desafios" por "guerra".
Euler Amorim Junior – Goiânia/GO.

(2) Norma Costa (normadama@yahoo.com.br terça-feira, 21/08/2008 11:44)
A série de artigos sobre a Área de Proteção Ambiental da bacia hidrográfica João Leite nos desperta para o seguinte alerta: a APA do córrego Vaca Brava, ao lado do Goiânia Shopping, está sendo desmatada e degradada pela ampliação do empreendimento comercial.
Parece que as autoridades do meio ambiente de Goiânia não estão preocupadas com o fato de que ali é área de absorção e também de preservação permanente com uma pequena mata ciliar que ali ainda se encontra.
Norma Daisy M. Costa Gomes – Goiânia/GO.

(1) Emmerson Kran (alxkran@uol.com.br terça-feira, 19/08/2008 22:40)
A bacia do João Leite sofre com a tentativa de ver às suas margens um mega projeto turístico que propõe geração de emprego e divisas ao entorno de Goiânia, mas se implantado à toque de caixa, sem o devido cuidado, corre-se o risco de que os proponentes do projeto, denominado Goiânia Terceiro Milênio, desconsiderem importantes alertas de especialistas sobre perigo de equipamentos como zoológico, parque agropecuário, esporte náutico e outros.
Nossas atenções estão voltadas para a APA do João Leite.
Emmerson Kran – jornalista do Programa Conexão Ambiental – Rádio Difusora, Goiânia/GO.

SANTA CATARINA: COMBINAÇÃO DE EFEITOS GLOBAIS E LOCAIS,

por Osmar Pires Martins Júnior

O País acompanha o sofrimento da população de Santa Catarina que enfrenta as conseqüências das enchentes que assolam os moradores da região do Vale do Rio Itajaí. O noticiário sobre os episódios relata um nível de precipitação pluviométrica acima da média histórica, deslizamentos de encostas, extravasamento dos caudais do seu leito natural, destruição de estradas, soterramento, inundação de cidades e fazendas, prejuízos humanos e materiais de centenas de milhões de reais.
Os brasileiros estão acostumados, nesta época do ano, a ouvir notícias como as acima citadas, afetando populações rurais e, principalmente, urbanas. Quase todas as metrópoles brasileiras enfrentam problemas semelhantes, devido ao processo desordenado de uso e ocupação do solo, até mesmo em cidades planejadas. Os goianienses podem se lembrar de notícias como: “motoqueiro afetado por tromba d’água desaparece pela boca de lobo e reaparece morto no rio Meia Ponte dois dias depois”; “erosão destrói Alameda das Rosas”; “enchente no córrego Botafogo derruba barraco e arrasta criança de nove anos que dormia no seu quarto”.
O fenômeno possui freqüência anual associada ao período chuvoso e, por isso, transmite a impressão de que se trata de ocorrência natural. Daí o batismo equivocado de desastre natural que este tipo de fenômeno recebe na mídia. Sem dúvida que há um componente natural a ser estudado. Mesmo considerando este componente natural, suas conseqüências mais graves poderiam ser evitadas com as modernas técnicas de previsão meteorológica.
A diferença dos eventos ocorridos neste ano se deve à intensidade do fenômeno climático, com gravidade superior aos eventos anteriores. E essa intensificação dos efeitos do clima sobre a vida, em especial a humana, não ocorre apenas no nosso País e, particularmente, em Santa Catarina. Não é segredo para ninguém bem informado que o nosso planeta enfrenta o efeito estufa, decorrente de duas causas principais: o lançamento de poluentes em níveis crescentes após o advento da revolução industrial e a degradação da natureza, com o desmatamento e a poluição dos mares, afetando os ciclos biogeoquímicos da água e do carbono.
Os efeitos globais atuam em sinergia negativa com os efeitos locais, decorrentes da interferência do homem sobre componentes da natureza que participam dos ciclos da água e do carbono. E estes efeitos encontraram em Santa Catarina a combinação que resultou na intensificação de fenômenos globais, atuantes em anos anteriores, só que, agora, magnificados pelo aquecimento da atmosfera do planeta e pelo abuso no uso do solo, com a ocupação das áreas de preservação permanente às margens dos mananciais, das encostas e das várzeas do Vale do Itajaí. Intensificou-se o desmatamento dos últimos resquícios de Mata Atlântica: Santa Catarina é campeã no ranking da destruição do bioma mais destruído do País.
A lição que se deve extrair destes fenômenos é que eles não são apenas naturais. O ser humano deve olhar para si mesmo e questionar as práticas baseadas nas ações irracionais de destruição dos morros e agressão aos mananciais hídricos, com a construção de rodovias, avenidas marginais, prédios de apartamentos, condomínios de luxo ou populares e shoppings comerciais. Estas ações causam perdas irreparáveis, inclusive de vidas humanas. E devemos refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções retrógradas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade socioambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global.
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Comentários sobre esta matéria:

(10) Wilame Gomes de Abreu (wilamega@ig.com.br Opinião do Leitor, domingo, 14/12/2008, p. 6, Diário da Manhã)
Rigor Científico
Excelente artigo. O articulista está de parabéns. É preciso enfrentar o problema de forma crítica e com rigor científico. Combater a ignorância humana referente ao uso inadequado do solo é garantir as gerações vindouras.
Wilame G. de Abreu – coordenador do Núcleo de Pesquisa da Faculdade Católica Dom Orione, Araguaína/TO.

(9) Marilda Shuvartz (shumabio@uol.com.br Opinião do Leitor, domingo, 14/12/2008, p. 6, Diário da Manhã)
O articulista está de parabéns pelo artigo “SC: combinação de efeitos globais e locais”.
Marilda Shuvartz – professora doutora do ICB/UFG, Goiânia/GO.

(8) Francisco de Assis Mendonça (chico@ufpr.br Opinião do Leitor, domingo, 14/12/2008, p. 6, Diário da Manhã)
Problema atual
O artigo "Santa Catarina: combinação de efeitos globais e locais", publicado no Diário da Manhã, ajuda a refletir profundamente sobre o problema atual das inundações/deslizamentos em SC. documento do século XIX, a seguir transcrito, já alertava sobre o problema:

[...] DIÁRIO CATARINENSE - 29 DE NOVEMBRO DE 2008 - EDIÇÃO 8271

História: A enchente - carta de Hermann Blumenau, o fundador da colônia no Vale do Itajaí, escreve cheia em novembro de 1855. Em uma carta a um conselheiro do império, datada de 30 de abril de 1856, Hermann Blumenau, o fundador da cidade hoje novamente devastada pela força das águas, fala de uma grande enchente ocorrida em novembro de 1855 no Rio Itajaí-açu (com o nível do rio subindo 15 metros em um dia e meio). A descrição da destruição e dos prejuízos causados pela cheia ocorrida em meados do século 19 guarda muitas semelhanças com a tragédia ora em curso na região.
O relato, publicado entre as páginas 157 e 160 do livro “Imigrantes 1748 - 1900: Viagens que descobriram Santa Catarina”, de Mariléa e Raimundo Caruso, publicado pela Editora da Unisul em 2007, impressiona:
[...] Mas não me foi dado, depois da minha partida da Corte, um momento de descanso e ócio tranqüilo. Desde a minha volta da Alemanha em 1850, parece que a constelação dos astros na hora do meu nascimento ou do meu desembarque nestas praias não foi benigna. O meu destino ou malicioso gênio me persegue incessantemente, malgrado qualquer sucesso e amargurando-me a qualquer hora de tranqüilidade e de gozo.
No ano passado, reinava nestas paragens um tempo tão ruim, que apenas se tem lembrança de outro ano tão desventuroso, desde que vieram para cá os homens brancos. A colheita do feijão em maio e das batatas inglesas em junho perderam-se inteiramente, ficando apenas a semente para a próxima plantação. Cheguei em julho no Desterro e em vez de uma viagem de seis dias, em tempos regulares, gastei um mês inteiro para chegar a esta colônia, sempre retido em caminho por chuvas e águas de monte.
Este mau tempo continuou até meados de dezembro, havendo uma vez onze dias consecutivos, que não apareceu nem um só raio de sol. Ao lavrador apenas permitiu plantar a semente ao solo.
O prejuízo foi grande, tanto aos colonos como á minha pessoa, que me obrigou a coadjuvá-los com adiantamentos muito maiores do que podia calcular, mas ainda tive que conservar o ânimo e a coragem perante os colonos, que às vezes queriam se desesperar e muito me acabrunhavam com as suas lamentações.
Neste estado de coisas houve uma interrupção muito desagradável, em princípio de novembro, quando o engenho de serrar de um antigo colono e amigo, localizado de 6 a 8 léguas daqui, no Itajahy-Mirim, foi atacado pelos bugres, que mataram dois trabalhadores e saquearam inteiramente o estoque e dependências, escapando somente meu amigo pela sua extraordinária coragem e força, mas com duas flechas no corpo, que por sorte não o haviam ferido ortalmente, e o retiveram na cama durante bastante tempo.
Tendo visitado este meu amigo e querendo voltar para cá, na véspera do dia fixado da minha partida, 17 de novembro, trouxe-me lembranças funestas, pois um temporal furioso iniciou de S.SE., acompanhado de chuva diluvial, que somente cessou no dia 20.
Menos de 36 horas foram suficientes para encher o rio até a altura de mais de 63 palmos do nível normal antes do início do temporal. O rio alagou quase todos os seus barrancos e as casas neles
estabelecidas, causando inúmeros males e prejuízos diretos, tanto na colônia quanto em todo o seu território habitado.
Não se pode avaliar os prejuízos em menos de 60 até 80 contos de réis, antes mais do que menos. Das plantações de milho, feijão e batatas em todo o rio não ficaram senão 30% e fui obrigado a
mandar buscar destas sementes destas últimas duas em Santa Catarina (Desterro) e do Rio de Janeiro; mandioca e cana-de-açúcar ficaram afogadas e apodreceram pela menos três quartos das plantações novas e velhas. A situação foi tristíssima em toda a parte, os mantimentos subiram a um preço enorme e para não ver os colonos perecerem de fome e perderem inteiramente o fruto de anos de trabalho pela sua dispersão, não houve remédio, senão sustentá-los de novo com fortes adiantamentos, que abateram todos os meus cálculos anteriores. Pessoalmente tive a lastimar ainda muitas outras perdas diretas: minha casa, em que moravam o meu guarda-livros e o jardineiro, construída numa bela ponta de terra, foi carregada pelo furor das águas, levando todo o seu conteúdo de livros, instrumentos, mercadorias e outras coisas de valor pecuniário, como muitos objetos de lembrança e recordação, que me foram uito caros e não serão restituídos. Não se salvou coisa alguma da casa senão algumas pesadas ferramentas, e por verdadeira sorte, uma barra de ferro, que continha pouco dinheiro. Mas todos os meus títulos de terras se foram.
[...].
O jardim que cingia minha casa desapareceu quase completamente e com ele meu único recreio, ao qual me havia permitido. Aliás, minha maneira de viver é a mais econômica possível e às vezes até espartânica, para não me privar das despesas indispensáveis e permitir a continuação da minha empresa. Embora não sendo característica de meu temperamento, não pude deixar de chorar como uma criança, vendo a cena de destruição em toda a parte, no momento de minha chegada.
Desde o meu retorno da Alemanha havia gastado bastante dinheiro e trabalho com imensa paciência e pena, para trazer a este sertão tudo o que podia alcançar de útil, interessante e belo do reino vegetal, tanto da Europa quanto do Rio e de Santa Catarina. E, depois de muitas experiências perdidas, tinha conseguido enfim aclimatar aqui muitas plantas exóticas, árvores frutíferas e os mais belos arbustos de ornamento. Somente no mês de julho trouxe do Rio de
Janeiro mais de 400 novas qualidades. Havia um grande viveiro de árvores frutíferas, para distribuição aos colonos com milhares de exemplares. O jardim foi belo e florescente com as mais belas rosas etc. Refugiava-me nele, quando me sentia cansado, triste e oprimido - e quando voltei, tudo estava desaparecido, havia apenas barrancos dilacerados e uma praia de areia.
Em todo o comprimento do rio e em partes muito mais expostas, não foi demolida nem uma só casa, mas a minha foi-se embora por inteira e com ela o único divertimento a que podia me permitir, foi levado como por ironia pela mão maliciosa de um mau gênio, instruído ad hoc.
Além dessas perdas maiores, sofri ainda diversas perdas de alcance menor. A morte de gado, destruição de ranchos e casas de abrigo para os colonos recém-chegados, mantimentos e
indiretamente a necessidade de perdoar a quase todos os meus colonos os juros de suas dívidas etc., somando-se assim os meus prejuízos em 3 e meio a 4 contos de réis, antes mais do que menos. Não posso avaliá-los em exatidão. Com os demais objetos, também desapareceram todos os meus livros de contas, pequenos créditos etc., que farão falta na mão do meu guarda-livros.
Enfim, sucumbi ainda ante os abalos espirituais e morais, e diante das duras fadigas corporais,
fiquei doente por algumas semanas. Em geral a minha saúde desde 18 meses está enfraquecida, negando-se muitas vezes o meu corpo à minha vontade [...].

Francisco de Assis Mendonça – Professor Doutor do Programa de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR/Curitiba.

(7) Leonardo Aguiar Morelli (aguiarmorelli@hotmail.com Opinião do Leitor, domingo, 14/12/2008, p. 6, Diário da Manhã)
Publicação em site
Graças à apropriada abordagem de um tema complexo, desenvolvido pelo prof. Osmar Pires, nós encaminhamos o artigo supra para publicação em nosso portal do Fórum Social Mundial <http://www.defesadavida.org.br/>, estando disponível no endereço: .
Leonardo Morelli – coordenador Geral do Movimento Grito das Águas, membro do Instituto para Defesa da Vida e do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

(6) Euler Amorim (e.amorim@uol.com.br Opinião do Leitor, domingo, 14/12/2008, p. 6, Diário da Manhã)
Culpa dos humanos
Muito lúcido o artigo sobre os efeitos globais e locais causados pela "natureza". Coragem, muita coragem, isso é que as pessoas têm de ter para deixar claro que a natureza tem apenas uma parte das causas dos desastres e que as conseqüências – culpa do elemento humano – devem ser examinadas e duramente combatidas, tal como o articulista relatou.
Euler Amorim – Goiânia/GO.

(5) Clarismino Luiz Pereira Junior (clarisminojr@amma.goiania.go.gov.br sexta-feira, 5/12/2008 10:40)
Cumprimento o articulista Osmar Pires pelo brilhante artigo acima, publicado no Diário da Manhã.
Clarismino Junior – presidente da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma) e da Agência Municipal de Meio Ambiente de Goiânia (Amma).

(4) Adelicio Ala de Oliveira (adelicioala@hotmail.com quinta-feira, 4/12/2008 22:18)
O editor do Diário da Manhã merece nossos cumprimentos pela publicação do artigo acima, de autoria do prof. Osmar Pires, a quem parabenizo.
Adelício Ala – pós-graduando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo IPOG, Rio Verde/GO.

(3) Gert Roland Fischer (gfischer.joi@terra.com.br quinta-feira, 4/12/2008 16:12)
Em referência ao artigo do articulista Osmar Pires, eu recomendo o texto “Desequilíbrios Ambientais em SC”, disponível no site: http://desequilbriosambientais.blog.terra.com.br/. O interessado saberá sobre alguns dos problemas ambientais de SC: equivocado uso dos solos; sobre enchentes, porque ocorrem os deslizamentos; a equivocada reconstrução nas áreas de enchentes; a repetição de erros; a incompetência do Governo.
Gert Roland Fischer – engenheiro, consultor em licenciamento e perícia ambiental, Florianópolis/SC.

(2) Graça Estrela (arara@gracaestrela.com.br quinta-feira, 4/12/2008 12:54)
Oi Osmar, eu enviei o seu artigo que analisa, sob a ótica ecológica, os desastres climáticos catarinenses para todos os paises onde mantenho contato. Continua escrevendo e alertando o povo; quem sabe, aprendem alguma coisa!
Graça Estrela - Artista plástica

(1) Luiz Bosco Sardinha Machado (advogadosardinha@yahoo.com.br quinta-feira, 4/12/2008 12:44)
O artigo acima vem a propósito e, por isso, foi publicado na Coluna do Sardinha.
Bosco Sardinha – advogado e jornalista da Tribuna de Betim/MG.


O CLIMA PODE ESFRIAR COM A ELEIÇÃO DE OBAMA,

por Osmar Pires Martins Júnior

A eleição de Barack Hussein Obama II para a presidência dos Estados Unidos da América é emblemática sob vários aspectos – político, econômico, social, racial, dentre outros, com repercussão sobre o meio ambiente. A postura conservadora dos últimos governos republicanos, sobretudo os de George Walker Bush, contra a Convenção das Mudanças Climáticas e o protocolo de Kyoto são um claro exemplo. A vitória de pirro de Bush sobre Al Gore, na eleição de 2004, forneceu ao derrotado a oportunidade para exitosa campanha contra o aquecimento global que ajudou a pavimentar o caminho para a chegada de Obama à Casa Branca. Luiz Bosco
A vitória do primeiro negro à presidência do país mais próspero do mundo representa a perspectiva de mudança de paradigmas na pós-modernidade, potencialmente capaz de alterar as prioridades políticas internacionais e nacionais, na luta pela inclusão de amplos setores marginalizados ou ditos minoritários, como mulheres, negros, imigrantes e trabalhadores. O tema do aquecimento global tende a ganhar força, a partir de novas abordagens, como a discussão de instrumentos econômicos de proteção ambiental, inclusive nas cidades.
As cidades precisam desenvolver, dentro desse contexto global, seu patrimônio ambiental. Em Goiânia, esse patrimônio é rico e diversificado, constituído por 116,3 milhões de metros quadrados de Espaços Livres e Áreas Verdes, nas categorias de praça, parque; parque linear, verde de acompanhamento viário, área verde particular, equipamento público e jardim de representação. Este levantamento foi disponibilizado ao Município de Goiânia, permitindo a inserção dos dados no Mapa Urbano Básico Digital de Goiânia, sob a responsabilidade da Agência Municipal do Meio Ambiente e da Companhia de Processamento de Dados. O Sistema de Informação Geográfica de Goiânia (SIGGO) contém um banco de dados espacial com bairros, quadras, lotes, hidrografia, escolas, posto de saúde e outras informações e que, a incorporação dos dados ambientais possibilita o gerenciamento, planejamento, controle, preservação e divulgação do patrimônio ambiental de Goiânia.
A extensa base inicial de dados ambientais permite o fornecimento de informações detalhadas, de maneira ímpar, frente à realidade dos demais municípios brasileiros. A complementaridade e integração desta base de dados às demais camadas de informação do SIGGO, bem como sua disponibilização aos profissionais da iniciativa pública e privada e à comunidade em geral, são os primeiros passos de um desafio maior – que é incorporar este banco de dados aos procedimentos cotidianos dos agentes públicos e privados na produção do espaço urbano, de maneira sustentável, respeitando e potencializando os efeitos positivos do patrimônio urbano no uso e ocupação do solo.
O desenvolvimento sustentável é um termo moderno de aceitação universal, mas de difícil implementação, pois exige, muitas vezes, meios e instrumentos não tão acessíveis. No caso em foco, a cidade de Goiânia dispõe de um rico e diversificado patrimônio urbanístico-natural que, aliado ao sistema integrado de informação, aqui comentado, constituem-se no objeto e ferramenta de gestão racional do território. Cabe agora aos diversos segmentos da nossa sociedade aceitar e vencer o desafio de um futuro equilibrado, no seu tríplice aspecto, ambiental, econômico e social. Caso contrário, esse patrimônio será apropriado pelos agentes produtores do espaço urbano com o único fito de obtenção do lucro.
Goiânia possui características peculiares, consistentes no patrimônio ambiental que proporciona elevado índice de área verde de cem metros quadrados por habitante, bem como na disponibilização de ferramenta moderna, o SIGGO-Ambiental. Essas características possibilitam a aplicação de mecanismos de desenvolvimento limpo e sustentável. Para tal, é necessário que o Município promova ou estimule pesquisas científicas para determinação de parâmetros físicos, sociais e ambientais da arborização no meio urbano. O círculo virtuoso dessa estratégia de gestão urbana gera instrumentos, como o crédito de carbono, de melhoria contínua da qualidade de vida dos cidadãos.

DESCONFORTO AMBIENTAL: CAUSAS LOCAIS E EFEITOS GLOBAIS

Neste verão, Goiânia enfrentou temperatura de até 43ºC e baixa umidade relativa do ar, num contexto de aquecimento global. As questões da ecologia e do meio ambiente ocupam o centro do debate internacional, com a intensificação da poluição, do desmatamento, do derretimento das calotas polares, do prolongamento da estiagem, de inundações, de fenômenos meteorológicos e outros relacionados ao desequilíbrio climático. A elevação da temperatura da atmosfera global é provocada pelo acúmulo de gases poluentes lançados em quantidades crescentes pelas atividades humanas.
As atividades que causam efeito estufa são realizadas por produtores rurais e urbanos que se localizam sempre em determinado município e que estão submetidas ao controle de instituições tributárias e ambientais. O uso do solo, o produto do desmatamento, a apropriação dos espaços livres urbanos e sua transformação em espaço construído resultam em mercadorias disponibilizadas aos consumidores e submetidas às leis de oferta e procura. A cadeia de fatores causadores do efeito estufa, assim, chega ao consumidor, localizado em grande parte nos centros urbanos. Portanto, as conseqüências são globais, mas as causas são locais. Cada árvore desmatada elimina a possibilidade de devolução de dezenas de litros de água na forma de vapor para a atmosfera. Cada litro que deixa de ser evapotranspirado pela vegetação implica em mais calor na atmosfera, oriundo dos raios solares refletidos pelas superfícies não naturais, aquecendo o ambiente que nos rodeia.
A humanidade avançou na compreensão do problema. Mas é necessário avançar mais, sobretudo, a partir de aspectos fundamentais como a superação da dicotomia entre países membros (os industrializados) e não membros (em processo de industrialização) do Anexo I do Protocolo de Kyoto, já que tal separação não procede inteiramente, pois todos são poluidores. A adoção de medidas de controle e de imposição de limites de lançamentos de gases poluidores não só aos países desenvolvidos, mas também aos países em desenvolvimento provocaria um efeito de distribuição de renda interna nestes últimos, tal como se verifica entre os países membros e não membros do Anexo I, via execução de projetos de MDL.
Outro aspecto a ser superado é quanto ao aprofundamento do estudo sobre o efeito estufa no meio urbano, preenchendo uma lacuna no debate sobre o tema. As cidades concentram atividades humanas em todos os ramos da economia e são o local de moradia de metade da população mundial e de oitenta por cento da população brasileira, constituindo-se numa das fontes de calor que contribuem para o aquecimento global. As metrópoles são fontes de calor antropogênico, com magnitude equivalente à radiação solar líquida na superfície terrestre, sobretudo as metrópoles norte-americanas, no período do inverno. Apesar disso, as cidades estão praticamente fora da discussão sobre o aquecimento global. Os fatores poluentes globais e sua relação com a produção e apropriação do espaço urbano, os espaços livres e as áreas verdes e com a melhoria da qualidade de vida, devem ser compreendidos para uma melhor formulação de estratégias de combate às mudanças climáticas.
Alguns Poderes Locais estão levando em conta a paisagem e arborização no planejamento e na gestão urbana. Os espaços públicos são articulados às áreas particulares que são destinadas ao comércio, à indústria e à moradia. Não se trata de privatizar o espaço público, mas de valorar a função social e ambiental da propriedade particular. Algumas cidades como Stuttgart, na Alemanha e Dayton, nos EUA, desenvolveram essa política e colhem resultados positivos com a melhoria da qualidade de vida de seus moradores. Aos Municípios, através das Prefeituras, incumbe a responsabilidade pelo desenvolvimento dessa estratégia de gestão urbana, para a qual, Goiânia possui um enorme potencial.

AS CIDADES E AS MUDANÇAS DO CLIMA GLOBAL

O aquecimento do planeta é um problema moderno e complexo, que envolve todos os países, entrelaçado com problemas sociais como pobreza, desenvolvimento econômico e crescimento demográfico. Em termos gerais, os processos de desenvolvimento não sustentáveis pressionam os recursos naturais, enquanto padrões não sustentáveis de produção e consumo, especialmente nos países desenvolvidos, rompem a capacidade de suporte e empobrecem os ecossistemas e, como externalidade negativa, socializam a poluição e intensificam a pobreza em outros países.
É uma necessidade crucial para o futuro da humanidade efetivar os acordos internacionais e metas quantitativas que visam limitar a emissão de gases poluentes na atmosfera e para combater as mudanças climáticas negativas. Em 1992, a maioria dos países aderiu à Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que estabeleceu estratégias globais para reduzir o aquecimento da temperatura atmosférica. Em 1997, os governos promoveram um adendo ao tratado de 92, com medidas mais restritivas e vínculos jurídicos que passaram a vigorar com a adesão de 50% mais um dos países desenvolvidos que mais poluem o planeta.
A principal causa do efeito estufa entre os países desenvolvidos – 1º Mundo – é a intensa industrialização e lançamento de gases de efeito-estufa, em decorrência de uma matriz energética centrada no petróleo, no carvão e na energia nuclear. Estas fontes energéticas são poluentes, finitas e não renováveis . Nos países em desenvolvimento – 2º Mundo – e nos que ainda são considerados atrasados, com pouco desenvolvimento econômico – 3º Mundo – os principais fatores de aquecimento são decorrentes do uso do solo, principalmente o desmatamento e as queimadas que lançam gases de efeito-estufa (GEE). No Brasil, de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental de Controle do Clima da Organização das Nações Unidas (IPCC/ONU), 74% da emissão se deve ao desmatamento. Contudo, no nosso país assim como nos demais emergentes, como China, Índia e México, também ocorre significativo lançamento de gases estufa por diversas atividades industriais.
Vários são os gases lançados na atmosfera que causam aumento de temperatura, mas dois se destacam: o gás carbônico ou dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). Ambos são gerados por fontes naturais e não naturais. Entrementes, a partir da revolução industrial, no século XIX, a concentração do metano sofreu um aumento de 100% e a do gás carbônico, de 33%. A conseqüência da poluição atmosférica é a de promover um acréscimo na temperatura média da atmosfera terrestre de 0,44ºC entre 1861 a 2004 e, na temperatura à superfície, de 0,7ºC desde 1900. A partir do início do atual milênio, dez dos dez anos mais quentes tem sido quase sempre o da última década.
As estratégias para o combate ao aquecimento global são estabelecidas no IPCC, com a participação de representantes governamentais e não governamentais, envolvendo as maiores autoridades técnicas e políticas do mundo sobre o assunto. No âmbito do protocolo de Kyoto foram instituídos instrumentos de MDL, a partir da concepção e execução de projetos que contribuam para o alcance das metas do milênio aplicadas ao controle do clima, como o desenvolvimento de atividades econômicas baseadas em fontes energéticas não poluentes e renováveis, na reciclagem de materiais e em processos de produção mais eficazes, menos poluentes e menos demandadores de energia. Às cidades estão reservadas importantes atribuições ao cumprimento desse desafio.

O PAPEL DAS ÁRVORES NO CONTROLE DA POLUIÇÃO URBANA

Um dos significados mais importantes da percepção ambiental se refere ao reconhecimento do efeito potencial da arborização no controle da poluição. A paisagem urbana deve ceder espaços para barreiras vegetais de arbustos, árvores e folhagens, e para as árvores nos bosques e parques, proporcionando a refração das ondas sonoras com o solo e a diminuição dos níveis de ruído. As cidades estão submetidas a pressões sonoras crescentes, de 1 a 3 decibéis (dB) por ano nas metrópoles, degradando a qualidade de vida. O estresse auditivo, mantido em níveis acima de 55 dB, se torna crônico, causando estresse degradativo do organismo, submetendo a população a maiores riscos de doenças degenerativas Diversos autores desenvolveram estudos evidenciando o benefício da arborização no controle da poluição atmosférica. Do ponto de vista econômico, pode reduzir significativamente os gastos financeiros necessários para amenizar as condições estressantes da vida urbana e proporcionar conforto ao ser humano. Pesquisa desenvolvida em Santiago do Chile calculou que as árvores e arbustos capturaram 7% das partículas poluentes do ar, no período 1997-98, reduzindo os gastos com saúde pública em 25 milhões de dólares.
O maior benefício é o efeito indireto sobre a energia e o gás carbônico, especialmente em regiões que dependem do uso do combustível fóssil para o esfriamento e aquecimento internos. Árvores localizadas estrategicamente ao redor de edifícios podem reduzir em até 50% o consumo de energia para a refrigeração dos ambientes internos. Em países de climas quentes, as árvores incrementam a taxa de ventilação natural no interior dos edifícios, reduzindo as necessidades de refrigeração. Em regiões mais frias, formam barreiras que evitam a pressão exercida pelos ventos frios diretamente sobre as edificações, diminuindo as necessidades de calefação. Outra forma de reduzir o consumo de energia das cidades é através do desenvolvimento de uma arquitetura baseada na climatização mais natural das edificações, harmonizando a iluminação de ambientes com o acondicionamento térmico apropriado.
O plantio de cem milhões de árvores nas proximidades das residências norte-americanas reduz o consumo de 22 bilhões de kwh de eletricidade, o que equivale a uma economia nacional de U$ 2,3 bilhões por ano e evita a emissão de 9 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. Os materiais particulados, dispersos na atmosfera, podem ser reduzidos na ordem 18 a 180 kg, o que representa um valor anual de U$ 4,00 por árvore. O plantio de 500.000 árvores num subúrbio de Chicago com 23,2% de cobertura vegetal, apresenta uma relação custo - benefício de 2,6 e a taxa interna de retorno de 7,1 e um benefício diário de U$ 136 por 212 hectares de área arborizada. Cerca de 75% deste valor decorreu do efeito da vegetação na mitigação de particulados e outros 20% na de dióxido de nitrogênio.
As árvores amenizam o calor e melhoram o ar intra-urbano geral, enquanto elas próprias sofrem os efeitos contaminantes adversos. No pólo industrial de Cubatão (SP) foram identificados 38 famílias e 73 gêneros de plantas resistentes ou tolerantes à poluição atmosférica. A biofiltração da cobertura vegetal pode colaborar para reduzir os custos de implantação de equipamentos antipoluentes em distritos industriais. A vegetação possui capacidade de absorção e dispersão de fumaça e poeira, filtrando partículas em suspensão, além de eliminar muitos poluentes atmosféricos, como dióxido de enxofre, fluoreto de hidrogênio, óxido de nitrogênio, hidrocarbonetos e foto-oxidantes, melhorando a qualidade do ar. O reconhecimento dos efeitos antipoluentes da arborização permitiu desenvolver o conceito da Biomassa como Agente Seqüestrador da Poluição, que se constitui num instrumento econômico de gestão ambiental urbana. Os benefícios financeiros podem ser gerados pela contribuição interna, da própria sociedade, como a contribuição de melhoria e também pela contribuição externa, por meio de projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo que geram créditos de carbono, negociados nos Países industrializados.

O EFEITO REFRESCANTE DA EVAPOTRANSPIRAÇÃO

No período do inverno intertropical, os cidadãos sofrem com baixas umidades relativas do ar, convivendo com um desconforto de “clima de deserto”. O nível de vapor d'água na atmosfera é determinado não só por fatores do clima, como a temperatura do ambiente, mas também pelas interações de fatores físicos e fisiológicos, incluindo vegetais e animais. Os fatores físicos (radiação, insolação, velocidade do vento, etc.) influenciam na condução e na convecção de calor sensível. Os fatores fisiológicos exercem controle na evaporação ou condensação de calor latente. Este representa o fluxo de energia consumido na mudança de fase da água, do estado líquido para vapor ou vice-versa. O fluxo é negativo quando a planta transpira, e positivo quando se condensa nas folhas das árvores no orvalho ou na geada.
No aspecto físico, a estrutura molecular do vapor d'água possui uma propriedade de forte interação com radiações eletromagnéticas emitidas por materiais existentes no ambiente. O vapor d'água, ao se movimentar com o ar, armazena e ameniza as trocas de energia, atuando com um equalizador. A quantidade de vapor d'água existente na atmosfera determina o ritmo da evapotranspiração das plantas. Tais processos ecofisiológicos propiciam benefícios ambientais que melhoram tanto o clima das imediações como as condições de vida em geral e humana em particular.
As maiores reações de transformação de energia da vida são as que envolvem a assimilação e a liberação do carbono na fotossíntese e na respiração. A única fonte de carbono assimilável pelas plantas é o gás carbônico atmosférico. Antes da revolução industrial e do efeito estufa, a concentração natural do gás carbônico no ar é de apenas 300 partes por milhão (ou 300 ppm). Esta concentração é menor do que a força que puxa vapor de água da planta para a atmosfera. A diferença de pressão exercida pelo gás carbônico e pela água sobre o tecido da folha e no ar circundante é responsável pela transpiração de mais ou menos 500 gramas de água para cada grama de carbono assimilado pelas plantas.
O efeito refrescante da evaporação é determinado pela quantidade de água evaporada pela planta, portanto, é proporcional à taxa de transpiração. A eficácia da taxa de transpiração aumenta com a elevação da temperatura do ar, com a redução da umidade relativa e com um bom suprimento de água. Se a transpiração é acelerada pelo vento, extrai-se tanto calor que as folhas podem se tornar mais frias que o ar. Uma taxa de 0,1 milímetro de água por hora remove calor da ordem de 70 watts por hora. O efeito refrescante corresponde, portanto, ao consumo de energia de uma lâmpada incandescente que, ao preço de R$ 0,25 por kwh, proporciona uma economia de R$ 93,75.
No balanço de radiação de uma árvore, de 10 a 25% da fração interceptada é refletida, e o restante, ou é absorvida pela árvore para fins de transpiração ou de fotossíntese, ou se transforma em calor aquecendo o ar circundante. Este aquecimento, no entanto, é pouco significativo, não chegando a afetar o efeito refrescante. Conclui-se que os revestimentos vegetais contribuem para o balanço energético e para o equilíbrio térmico do meio. A radiação líquida disponível é o resultado da soma do calor latente de evaporação, do calor sensível transportado da superfície e do fluxo de calor no solo. O calor sensível e o calor latente de evaporação são parâmetros difíceis de serem medidos, mas podem ser obtidos por extrapolação, através da razão entre os seus respectivos valores. Resulta um novo parâmetro, chamado razão de Bowen, que depende da densidade do revestimento vegetal e da disponibilidade de água. Nas imediações dos lagos ou das florestas, a energia proveniente dos raios solares é, em grande parte, consumida pela evaporação. Por outro lado, a drenagem das várzeas e o desmatamento do solo tornam a atmosfera rica em calor sensível e pobre em calor latente de vaporização, conseqüentemente, eleva-se a razão de Bowen.
Nas condições do cerrado essas questões são ainda mais complexas, pois as plantas lenhosas mantêm os estômatos abertos transpirando livremente, mesmo no período da seca, graças às suas raízes profundas que garantem o acesso à água. Com adequado suprimento hídrico no solo, uma árvore isolada pode transpirar 400 litros d’água por dia. Esse efeito térmico equivale ao funcionamento diário de cinco condicionadores de ar com capacidade de 2500 quilocalorias cada. Nas estações de pouca precipitação, as plantas interrompem o crescimento, evidenciando estresse hídrico moderado e redução da taxa de transpiração da ordem de 42%, quando a demanda evaporativa é elevada, principalmente pela resistência estomática do dossel. As espécies vegetais nativas, adaptadas fisiologicamente às variações climáticas e sazonais, contribuem para a manutenção do equilíbrio ecológico das bacias hidrográficas, conferindo sustentabilidade às atividades econômicas.

URBANIZAÇÃO E ÍNDICE DE ÁREA VERDE

As comemorações de eventos, como o dia da árvore, ilustram o avanço da consciência ambiental por parte dos cidadãos. Apesar disso, verifica-se a tendência de redução das áreas verdes urbanas disponíveis por habitante, isto é, do Índice de Área Verde (IAV). Na França, apenas 4 das 24 cidades com mais de cem mil habitantes dispõem de mais de 5 m²/hab. de espaço aberto público; 11 dispõem de 2 a 5 m² e 9 cidades, de menos de 2 m².
No Brasil, o IAV da cidade de Curitiba é de 50,15 m²/hab., sendo que a vegetação de áreas particulares joga um papel fundamental, graças a uma inteligente política de incentivo fiscal, que proporciona abatimento no imposto territorial urbano proporcionalmente à área do terreno que é mantida com cobertura vegetal pelo proprietário, podendo chegar a até 100% de isenção. Em Vitória (ES), o IAV é de 82,70 m²/hab., proporcionado em grande parte pelas Unidades de Conservação criadas nas encostas da Serra do Mar, que preserva importantes resquícios da formação vegetal da “Mata Atlântica”. Em Maringá (PR), o IAV é de 20,62 m²/hab., onde se destaca a categoria do verde de acompanhamento viário, com um exuberante programa de arborização de ruas e praças.
O IAV de Goiânia, em 2001, era de 100,25 m²/hab e, em 2008, de 94 m²/hab. Esta riqueza está submetida a permanente ameaça, pois o Índice de Dilapidação do Patrimônio Público é de 3,65% ao ano. Com isso, caso estas ameaças, representadas pela urbanização descontrolada não sejam contidas, o IAV de Goiânia poderá ser reduzido a 45 m²/hab em 15 anos.
A urbanização sem controle, ao desnudar e impermeabilizar o solo, causa uma série de impactos sobre a qualidade de vida dos cidadãos. As cidades apresentam várias alterações climáticas em relação ao entorno não urbanizado. A temperatura média anual é de 0,5 - 1,5ºC mais alta nas cidades; a umidade relativa é menor tanto no inverno (2%) como no verão (8-10%); as precipitações são, em média, 5-10% maiores; a média de vento é 10-30% de menor ocorrência; a poluição gasosa é 5-25% maior, com 10 vezes mais partículas sólidas em suspensão na atmosfera urbana do que na zona rural. Em Goiânia, constata-se o fenômeno da ilha de calor no centro da cidade, com temperaturas internas maiores do que na periferia. A ilha de calor é um fenômeno associado às ações antrópicas sobre o ambiente urbano, por meio do uso do solo, bem como aos condicionantes do meio físico e seus atributos geoecológicos. Em Londrina/PR constatou-se cientificamente que somente os setores dotados de áreas verdes e lagos ou de áreas rurais extensas no seu interior não apresentaram configurações de ilhas de calor no seu interior, comprovando que as ilhas térmicas se manifestam em áreas de densa urbanização e com extensas superfícies cobertas por asfalto.
A parte da energia solar que incide sobre um corpo não luminoso e que é devolvida para a atmosfera, por reflexão difusa, é chamada de albedo ou refletividade. Pesquisas realizadas em cidades com típico clima tropical, como em Rondonópolis, no Mato Grosso, comprovaram que o desmatamento e a impermeabilização do solo, sobretudo na área adensada central, causam uma brusca redução na capacidade de armazenamento d'água pelo solo urbano. A intensa radiação solar reinante nos trópicos determina condições de evaporação da água armazenada no solo urbano em pouco tempo (questão de horas) que, aliado ao rápido aquecimento, causa diminuição do consumo de calor latente (energia gasta na vaporização d'água). E, pelo fato de existir pouca vegetação, toda energia absorvida pela superfície impermeável junto à interface solo/atmosfera, transforma-se em calor sensível, aumentando a temperatura intra-urbana e o desconforto ambiental.
A arborização urbana contribui para a preservação e melhoria da qualidade ambiental das cidades através da função fisiológica, relacionada a melhoria das condições do solo, regularização do ciclo hidrológico, moderação dos extremos climáticos, sobrevivência da fauna e redução dos níveis de poluição atmosférica., bem como da função psicológica, exercida na quebra da monotonia das cidades, na mudança do horizonte e na manifestação de um ritmo natural, com cores relaxantes, possibilitando a renovação espiritual. O conforto que envolve as respostas aos sentidos de audição, visão, olfato, paladar, tato, equilíbrio, calor e frio, estão relacionados a estímulos do ambiente e associados à cobertura vegetal do solo urbano. A sensação de conforto ou desconforto representa a integração de respostas dos nossos sentidos a estes estímulos e decorre da vegetação que, quando adequadamente presente, atenua os estímulos intensos e dominantes de propagação e percepção do calor ou do frio, dos sons e da luz, portanto, dos confortos térmicos, acústicos e lumínicos.

COMEMORAÇÃO À ÁRVORE E SEUS SIGNIFICADOS

A data de 21 de setembro é comemorativa ao dia da árvore. Nesta ocasião, geralmente a atenção se voltada para a árvore no contexto dos biomas nacionais - amazônico, atlântico ou do cerrado. E isto, sem dúvida, é importante, dado o processo de extinção dos ecossistemas e das espécies da fauna e da flora em particular. Entrementes, pouco se fala da árvore e sua importância no ecossistema urbano. Nas cidades, o desenvolvimento do tema nos remete à associação entre os termos arborização urbana e qualidade de vida. Para o entendimento do assunto, é preciso compreender e destacar o significado da árvore na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
A abordagem holística é a mais adequada ao estudo da relação Homem - Natureza, cuja dinâmica envolve os aspectos físicos, bióticos, sociais e culturais do ambiente. A Ecologia Urbana é um ramo da Ecologia Humana, cujo objeto de estudo é o ecossistema urbano, que pode ser definido como um espaço limitado e densamente povoado. A estabilidade dos ecossistemas naturais aumenta com o crescimento da sua complexidade. Ao contrário dos ambientes naturais, as cidades – ambientes com crescentes elementos artificiais e decrescentes elementos naturais – possuem uma tendência oposta, o que as tornam mais frágeis e passíveis de perda do equilíbrio. Os aglomerados urbanos apresentam um metabolismo muito mais intenso por unidade de área quando comparados com os ecossistemas naturais, exigindo um influxo maior de energia, e uma grande necessidade de entrada de materiais e de saída de resíduos.
As relações do homem com a natureza tornaram-se mais complexas com o surgimento dos aglomerados urbanos. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92) fez o alerta: as cidades dos países industrializados exercem uma pressão muito séria sobre o ecossistema global, ao passo que as cidades dos países não industrializados necessitam de mais matéria-prima, energia e desenvolvimento econômico para superar seus problemas econômicos e sociais básicos, cujas condições vêm se deteriorando, sobretudo em decorrência do baixo volume de investimentos no setor. A infra-estrutura inadequada repercute sobre aspectos socioambientais, privando os cidadãos de lazer e cultura, de acordo com a Pesquisa de Informações Básicas Municipais 2001, do IBGE.
Uma das estratégias para frear o "caos urbano" é a adoção do conceito de qualidade ambiental, que se relaciona ao estado de boa qualidade dos ecossistemas, visando alcançar o bem estar de uma população. A qualidade de vida urbana requer a satisfação das necessidades econômicas, liberdades civis, direitos humanos e justiça, mas também da qualidade ambiental, que engloba, dentre outros, ar puro, água limpa, saúde e lazer.
O saneamento ambiental, no meio urbano, está relacionado à arborização através da possibilidade de controle das atividades e da dinâmica de produção, consumo e disposição final do lixo, do esgoto, da drenagem e da poluição do ar, objetivando melhorar a eficiência do sistema de “digestão urbana”, com redução da geração de resíduos e de entrada de materiais, de energia e outros insumos consumidos pelo ecossistema urbano.
A arborização urbana é um conjunto de áreas públicas e privadas com vegetação natural. A compreensão deste termo requer a conceituação de outros a ele correlacionados, quais sejam os de espaços livres, áreas verdes, árvores de rua e índice de área verde. Os espaços livres são espaços não edificados, com potencial para se transformarem em áreas verdes. As áreas verdes, por sua vez, constituem-se de um conjunto de áreas públicas ou privadas do espaço urbano, onde há a predominância da vegetação natural ou não, respectivamente implantada através do florestamento (processo natural) ou do reflorestamento (processo antrópico) urbano.
Já as árvores de rua constituem-se de um conjunto de exemplares arbóreos, arbustivos ou rasteiros, existente nas ilhas, calçadas, rotatórias, praças ou outros espaços livres do sistema viário urbano. As áreas verdes jogam um papel importante na melhoria da qualidade de vida urbana. Elas constituem-se num indicador ambiental, calculado através do Índice de Área Verde (IAV). O IAV fornece a quantidade de área verde, em metros quadrados, disponível para cada habitante de uma cidade.

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Comentários sobre esta matéria:

(16) Suely Assis (sindegturgoias@yahoo.com.br via e-mail, Opinião do Leitor, p.6, domingo, 9/11/2008, Diário da Manhã)
Turismo ecológico
Ao ler todos os artigos sobre meio ambiente urbano, de autoria do articulista Osmar Pires, publicados neste conceituado jornal, eu tenho certeza que encontramos um forte parceiro, pois temos procurado incansavelmente orientações para a categoria de Guias de Turismo do Estado de Goiás.
É urgentíssimo que nossa categoria seja atualizada e que esteja preparada para receber turistas de outros estados e outros países. Com certeza, estamos deixando a desejar. Como se sabe, os turistas estão chegando à nossa bela cidade todos finais de semana e até todos os dias e o tema Ecologia e Arborização Urbana não é explorado pelo nosso segmento.
Quando saímos do curso nacional há 8 anos e há 3 anos também o regional, pouco se falou nesse tema, a relação entre parques, árvores, ar puro e a qualificação das cidades. Temos urgência em nos capacitar, pois Goiânia ainda está fora do mapa brasileiro do turismo.
Os turistas de outros estados e municípios, como estudantes de escolas que chegam à Goiânia para fazer trabalho de campo, ficam deslumbrados com tantos parques, nascentes de águas, arborização, ruas amplas etc. O trabalho educativo realizado pelo autor contribui para o aprimoramento do turismo ecológico em nossa City Tour, preparando-a como destino capaz de encher de encanto os olhos de nossos visitantes.
Suely Assis – Presidente do Sindicato de Guias de Turismo do Estado de Goiás (SINDEGTUR-GO).

(15) Paulo Morais (moraispaulo55@hotmail.com sábado, 8/11/2008 13:48)
O autor vem obtendo boa repercussão, conseguiu atingir os objetivos, entre os quais de abrir o debate sobre o turismo sustentável e de que Goiânia precisa avançar implantando equipamentos de lazer para a população local e para os turistas de maneira responsável e sustentável, mas viáveis economicamente.
O secretário de Turismo encontra-se em Barcelona, onde apresenta projetos sustentáveis para Goiânia, obtendo-se resultados extremamente proveitosos e surpreendentes. Pela receptividade encontrada, sinaliza-se que a linha de trabalho adotada até agora está correta, conforme nos expõe a presidenta do SINDEGTUR, Suely Assis, reforçando a linha de trabalho adotada.
Paulo Morais – engenheiro, assessor do secretário Euler Morais de Turismo de Goiânia.

(14) Adelício Ala de Oliveira (adelicioala@hotmail.com sábado, 8/11/2008 10:50 e sexta-feira, 17/10/2008 10:00 e domingo, 05/10/2008 21:43)
Leitura estimulante. Parabéns ao autor pelos artigos sobre o papel das árvores no controle da poluição urbana com informações a respeito dos significados da arborização para a melhoria da qualidade de vida urbana. A esse respeito, cabe levanta a questão relacionando carros e árvores. Informações dão conta de que a frota de veículos nas metrópoles aumenta dia-a-dia. Como lidar com a poluição, calor, ruídos, fobias e estresse provocados pelos automóveis. O impacto é grande. Como as árvores contribuem para minimizar esse impacto?
Adelício Ala de Oliveira – especializando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelas Faculdades Osvaldo Cruz/Instituto de Pós-Graduação.

(13) Euler Amorim (e.amorim@uol.com.br sábado, 8/11/2008 07:17 e quinta-feira, 25/9/2008 15:18)
Parabéns ao articulista pelos artigos e aos comentaristas pelos ótimos comentários, que corroboram a assertiva do autor. O assunto tratado requer perseverança, pois interesses escusos e egoístas poderão sobrepor à real situação de nosso planeta. Goiânia tem de ser exemplo. Então, para nosso bem, continue firme. Nós o seguimos.
A propósito, na Rua 105, esquina com Av. Cora Coralina, Setor Sul, há uma árvore que teima em crescer, mas tem alguém que a corta para não atrapalhar o outdoor da banda Calypso. Nela consta a inscrição: "PENA DE MORTE - esta árvore está sendo executada aos poucos para não atrapalhar o outdoor".
E ainda: a calçada da avenida em frente à Universidade Salgado de Oliveira (Universo) está sem uma vaga sequer para uma árvore.
Euler Amorim – Goiânia/GO.

(12) Francisco de Assis Mendonça (chico@ufpr.br quinta-feira, 6/11/2008 16:44)
Parabéns ao autor pelo texto acima... Percebo que a tese de doutoramento que desenvolve na UFG está em curso de elaboração, e que promete muito! Sucesso.
Francisco Mendonça – Professor, Doutor, Coordenador do Programa de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR.

(11) Placidina Lemes Siqueira (placidinasiqueira@hotmail.com sexta-feira, 17/10/2008 10:09)
Obrigada ao articulista Osmar Pires pelo carinho com nossos pulmões, como se revela na crônica “O papel das arvores no controle da poluição nas cidades”, publicada hoje pelo DM; linda.
Placidina Lemes – Professora da UEG, especialista em Língua Portuguesa, membro da UBE-GO e da UBE-SC, bem como da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.

(10) William Jose Pereira (contato@florescomserenata.com.br segunda-feira, 13/10/2008 01:01)
Grande Osmar Pires! Parabéns e obrigado pelos artigos que escreve no Diário da Manhã. Gosto muito de ler todos!
William José – cantor do canto Flores com Serenata.

(9) Zeneida Abott (zeneida_zefa@yahoo.com.br quinta-feira, 09/10/2008 14:11)
Parabéns, ao autor por mais esse artigo sobre arborização urbana. Com a devida autorização, vou encaminhá-lo para publicação no Diário Popular da minha cidade. Parabéns mais uma vez.
Zeneida Abott – Pelotas/RS.

(8) Fabrício de Carvalho Honório (fabricio@fabricio.eng.br quinta-feira, 09/10/2008 9:35)
Parabenizo o editor do Diário da Manhã pela publicação da série de artigos de autoria do professor Osmar Pires sobre arborização urbana. Os textos são sempre bem vindos! Costumo copiá-los do site do DM e arquivar numa pasta do Word, para futuras consultas.
Fabrício de Carvalho – Eng. Agrônomo, inspetor do CREA-GO em Luziânia e Cristalina.

(7) Jair Maranhão Costa (maranhaocosta@hotmail.com segunda-feira, 06/10/2008 10:32)
Prof. Osmar, li e considero muito bom seu artigo sobre arborização e qualidade de vida, em comemoração ao dia da árvore.
Jair Maranhão – Pós-Graduando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental.

(6) Leda Selma (poetaledaselma@hotmail.com domingo, 05/10/2008 18:53)
Pois é, o autor, como sempre, contribuindo de forma valiosa para a preservação da saúde ambiental, disseminando informações que, por certo, tocarão a consciência ecológica inerte daqueles que, por um ou outro motivo, são omissos ou alienados em relação a um tema vital.
O espaço do autor no DM é muito bem aproveitado e já se tornou de utilidade pública. Parabéns!
Lêda Selma – escritora, membro da União Brasileira dos Escritores (UBE-GO).

(5) Ângelo Rigon (angelorigon@gmail.com via e-mail, Opinião do Leitor, p. 6, 4/10/08, Diário da Manhã,)
Todos de Maringá deveriam ler o artigo do professor Osmar Pires sobre árvores e qualidade de vida. Ele é de Goiânia, cidade que tem cinco vezes mais área verde por habitante que Maringá, dá exemplo quando o assunto é meio ambiente. Aqui, do jeito que estamos indo, com farmácias, estacionamentos e amigos do rei fazendo a festa, a tendência é piorar.
O artigo foi publicado na edição de hoje do Diário da Manhã e está disponível no Blog do Rigon, no endereço:<http://angelorigon.blogspot.com/2008/10/rvores-e-qualidade-de-vida.html>.
Ângelo Rigon – Maringá/PR.

(4) Iracema Dantas (echiquefalarportugues@hotmail.com quinta-feira, 02/10/2008 10:55)
Prof. Osmar, excelente artigo sobre os significados da arborização urbana (II). Li-o no DM, hoje bem cedinho. Parabéns!
Toda vez que nós matamos uma flor,
Secamos um rio,
Derrubamos uma
árvore,
A Humanidade morre um pouco.
Iracema Dantas – professora e poetisa, Goiânia/GO.

(3) Havita Rigamonti (havitavideo@yahoo.com.br quinta-feira, 25/9/2008 18:05)
Olá, Osmar. Em relação ao artigo sobre os significados da comemoração ao dia da árvore, manifesto que dá gosto ler obras coerentes, modernas e verdadeiras, sem as circularidades da esmagadora maioria.
A propósito, registro que pouco tempo depois de assumir o ministério [do Meio Ambiente], o Carlos Minc esbravejou dizendo que havia diminuído consideravelmente o desmatamento na Amazônia, que estava tudo sob controle. Mágico ou surreal? De repente, diminuiu o desflorestamento, do nada, em poucos dias? Agora, poucos dias depois ele diz que a Amazônia esta sendo totalmente queimada. Ué!. E nós, somos obrigados a pagar o salário deste e de outros personagens da política brasileira?
Abração do Havita Rigamonti – documentários de natureza – www.havitarigamonti.blogspot.com.

(2) José Luiz Bittencourt (bitt85@gmail.com quinta-feira, 25/9/2008 11:42)
Quero felicitar o articulista Osmar Pires pelo que escreve sobre a ecologia no DM. Acompanho com muito interesse a sua atividade na imprensa em defesa do meio ambiente. Seu nobre objetivo alcança repercussão entre aqueles que abraçam a causa da preservação de nossa natureza. Parabéns!
José Luiz Bittencourt (in memoriam) – foi articulista do DM, membro da Academia Goiana de Letras, deputado e vice-governador de Goiás.

(1) Flávio Aguiar (flavio.aguiar@brasilata.ind.br quinta-feira, 25/9/2008 08:53)
Muito me orgulho em ler os textos do Prof. Osmar Pires que, com a autorização do autor, são afixados no mural de informações da empresa Brasilata, onde trabalho.
Flávio Aguiar – Pós-Graduando em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental pelo IPOG.

FICA sujo?

por Osmar Pires Martins Júnior

O governo do estado realiza a décima edição do Festival Internacional do Cinema Ambiental – FICA, na cidade de Goiás, sob coordenação da Agência de Cultura (Agepel). O nome do festival indica seu objetivo: promoção da cultura cinematográfica para a defesa do meio ambiente. Se este não é o objetivo, então, o cinema produzido em Goiás reproduz o discurso dominante de apropriação das questões ecológicas apenas para efeito de marketing, isto é, meio ambiente, só “pra inglês ver”!
Entrementes, no 1º mundo, a questão ecológica avançou, por meio da internalização de políticas ambientais gerais e específicas em quase todas as áreas da atividade humana, com os sistemas de gestão ambiental. Com isso, não há falsa dicotomia entre cultura, economia, política, administração e meio ambiente. Então, os “ingleses”, isto é, os estrangeiros da Europa, dos Estados Unidos, da Austrália, do Japão, participantes do Fica, começaram a perceber que, aqui, a dicotomia é evidente. Como falar do meio ambiente no cinema, se o Cerrado é destruído a olhos vistos? Como falar de cultura ambiental se a Serra Dourada, patrimônio ambiental dos goianos, não tem proteção legal contra as ações degradadoras? Vale a pena realizar um cinema ambiental com forte apelo turístico, massivo, com mega-shows, se, ao final, a cidade de Goiás fica entupida de lixo?
A flagrante contradição entre festival, cultura e meio ambiente atingiu seu ápice em 2002, testemunhado pelo acúmulo de lixo nas ruas vilaboenses. O mau-cheiro ao último pêlo sensorial e papila dos paladares desagradáveis. A cidade foi destruída por uma inundação, agravada pelo desmatamento sem controle nas cabeceiras do rio Vermelho. Algo precisava mudar. Depois de quatro edições, as mensagens cinematográficas não alcançaram seu público-alvo? A população vilaboense, destinatária de tudo aquilo que movimentou produtores, agentes culturais, artistas, atores, palestristas e políticos, dentre outros, de vários cantos do país e do mundo, não foi sensibilizada a mudar de atitude, no gesto de educação ambiental mais simples – jogar o copo descartável na lata de lixo? Se não há envolvimento da população local, o que esperar de sua produção cinematográfica e ambiental?
O que esperar de coisas complexas, como o controle do desmatamento do Cerrado e a proibição do carvão nativo para abastecer as usinas siderúrgicas para a fabricação de aço - uma commodity exportada para os países industrializados? O que esperar do governo na decisão de desapropriar milhares de hectares visando proteger a Serra Dourada, um verdadeiro tesouro geológico e paleontológico, testemunho da evolução do ambiente e da cultura do homem do Cerrado? Se as respostas a estas perguntas óbvias forem negativas, então, concordo com o produtor cultural Eládio Teles que, alienado, o Fica é uma grande nave alienígena que pousa anualmente no platô da Serra Dourada e seus fulgurantes tripulantes descem até a Vila Boa para beber, dançar, comer empadão e rodar uns filminhos.
Num breve período, iniciado em 2003, a história do Fica registrou uma tentativa de mudança de paradigma: na quinta edição, foi implantado o Parque Estadual Serra Dourada, no Dia Mundial do Meio Ambiente, como parte das solenidades da sua quinta edição e lançado o “Fica Limpo”. No ano seguinte, foi inaugurado o “Centro de Triagem e Reciclagem de Lixo de Goiás” – operado pela cooperativa dos recicladores, que transformou catadores em empreendedores, donos do próprio negócio – e lançado o “Se Liga no Fica”, tudo isso, durante a sexta edição. O projeto “Eco-Vídeo Biblioteca Itinerante” deu continuidade às atividades realizadas durante o festival, junto às comunidades locais, com projeções num circo ambulante, instalado nas praças, nos bairros, lugarejos e escolas da região do rio Vermelho. O “Se Liga no Fica” promoveu a produção cinematográfica pela própria comunidade que deixou de ser agente passivo. Todos estes projetos, da iniciativa da Agência Ambiental de Goiás, patenteados no Instituto de Marcas e Patentes, foram patrocinados pela iniciativa privada. O projeto “Eco-Vídeo Biblioteca Itinerante” foi premiado nacionalmente no Concurso Público de Experiências Exitosas em Educação Ambiental, do Ministério das Cidades, em 2006.
A quinta edição foi um marco provisório na busca da integração entre cinema e meio ambiente, através dos projetos citados. Um projeto em particular foi assimilado pela prefeitura, o “Fica Limpo”, que limpa a sujeira deixada pelos milhares de turistas durante a semana do festival. Mas, e os outros? A grande dúvida que fica é: com a extinção da Agência Ambiental, qual o futuro do cinema ambiental? Será só cinema, e o lixo voltará, para o deleite dos tripulantes alienígenas que só querem farra? Se continuar apenas cinematográfico, sem perfil ambientalista – assevera o escritor, roteirista, professor e pesquisador do cinema brasileiro, Jean-Claude Bernadet – o Fica não terá identidade. Esperamos que o governo do estado e a Agepel consigam dar respostas à altura para estas questões.

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Comentários sobre esta matéria:

(22) Rafael Gomes dos Santos (rafagsantos@terra.com.br terça-feira, 8 de julho de 2008 09:30)
É com grande prazer que vejo no nosso meio alguém com coragem e argumentos, alertando para as contradições e, ao mesmo tempo, sugerindo novos rumos e um novo norte para o FICA. E fico bastante feliz que este alguém é você, Osmar.
Rafael Gomes dos Santos – Goiânia/GO.

(21) Eladio Garcia Sa Teles (eladiocinema@yahoo.com.br terça-feira, 17 de junho de 2008 09:01)
Caro Sr. Osmar Pires, agradeço os estimulantes textos que tem escrito e publicado. Manifesto, também, a satisfação de ter uma opinião minha, citada no seu artigo Fica sujo?.
Parabéns pelo seu trabalho.
Eládio Garcia Sá Teles – produtor cultural, presidente da Associação Goiana de Cinema e Vídeo, premiado na 1ª edição do Fica com a animação A Lenda da Árvore Sagrada.

(20) Luis Henrique de Faria Machado (luisdesenholuis@hotmail.com terça-feira, 17 de junho de 2008 09:01)
É com satisfação que leio o artigo Fica sujo? que faz profunda avaliação das entrelinhas da cultura brasileira. Sou muito honrado pela oportunidade de desfrutar a contribuição do autor do artigo, prof. Osmar Pires, como mestre na democratização da aprendizagem do conhecimento especializado.
Luiz Henrique de Faria Machado – especialista em Perícia Ambiental pela UCG.

(19) Paulo Ney Rabello (paulorabello@uol.com.br segunda-feira, 16 de junho de 2008 20:41)
Caro Osmar, com interesse, li seu excelente artigo sobre o FICA e posso afirmar que você limpa nossas mentes cansadas de tantos encontros ambientais e ambientalistas sem um resultado prático de atingir os próprios participantes. Faz tempo que ouvi uma expressão de um colega da CNEN que muito caracteriza encontros deste tema em todos os níveis: "é muito cocoricó e pouco ovo!".
Quando Goiânia plantou flores em seus canteiros, muitas delas, no princípio, foram arrancadas pelos próprios habitantes. A continuidade e persistência da semeadura do belo viraram o jogo e hoje o próprio goianiense combate qualquer ataque às praças, jardins e parques.
Seu artigo é um libelo para todos que participarem do festival deixar Goiás mais limpo que o ano anterior. Haverá um dia em que a cidade de Goiás será mais limpa depois que antes do FICA. Isto porque mensagem como a sua fará com que o corpo e a mente dos participantes estejam mais limpos ao saírem da semana do FICA que quando chegaram.
Fica suja toda nossa geração, a que mais devastou, sujou e depredou nossa casa, e que ainda reluta assumir uma postura conservacionista. Agradeço a você a balançada que causou nas entranhas do FICA que a partir do seu artigo fica mais limpo.
Sinceramente,
Paulo Ney P. Rabello – servidor público federal aposentado, ex-superintendente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) em Goiás.

(18) Ronald Barni (rbarni@uol.com.br segunda-feira, 16 de junho de 2008 19:03)
Prezado Osmar, seu artigo Fica sujo? é excelente. A propósito, sendo expert no assunto (importantíssimo nos dias atuais e futuros deste planeta), pergunto: i) Existem Gestores Ambientais com formação acadêmica específica, para atuar com propriedade em suas empresas? ii) quais as Universidades/Faculdades que estão formando estes gestores no Brasil?
Percebe-se que profissionais com formação em outras áreas, estão atuando por força de suas atividades com o meio ambiente - apenas esforçados, outros curiosos, etc. Isto prevalece tanto nas empresas privadas como nas empresas e órgãos públicos, a exemplo da situação caracterizada no artigo supra.
Abraço do Ronald Barni – economista, vice-presidente Administrativo da Ordem dos Economistas do Brasil.

(17) Mario Monzoni (http://www.ces.fgvsp.br segunda-feira, 16 de junho de 2008)
O artigo Fica sujo?, postado no Portal do Meio Ambiente, está publicado em: http://www.ces.fgvsp.br/index.cfm/www.nationalpost.com/images/index.cfm?fuseaction=noticia&IDnoticia=119216&IDidioma=1.
Mario Monzoni – coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces), professor da Fundação Getúlio Vargas – Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV-EAESP), doutor em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP. mestre em Administração de Política Econômica pela School of International and Public Affairs (SIPA), da Columbia University, Nova York/EUA, mestre em Finanças Públicas pela FGV-EAESP, bacharel em Administração de Empresas pela FGV-EAESP.

(16) Havita Rigamonti (havitavideo@yahoo.com.br segunda-feira, 16 de junho de 2008 11:30)
Osmar, parabéns pelo artigo Fica sujo?, publicado no Diário da Manhã. Até que enfim alguém tem a coragem de comentar sobre o FICA.
Sou cinegrafista e trabalho só com questões ambientais. Participei de uma das edições do festival e para mim foi suficiente. Nesta ocasião, perguntei a um jornalista famoso que proferia uma palestra: de que forma o festival contribuía na prática para os povos e o ambiente natural sofrerem menos – citei o caso da contaminação do Lago Serra da Mesa e o golpe que moradores levaram da empreiteira. Ele simplesmente não respondeu, não encontrou palavras e o olhar se perdeu na multidão da platéia pasmada.
Não há coerência, é um desfile de biodesagradáveis que dá dó. Perfeito quando coloca o termo grupelho para os que comandam o Fica. Um bandinho de pseudos, tentando aparecer em entrevistas inflamadas com os jargões tradicionais desta área. É por estas e outras que continua a degradação nos ambientes naturais.
Havita Rigamonti – técnico em Ecoturismo, apresentador de programa semanal na TV Record Paraná (RIC TV), cinegrafista premiado internacionalmente. Visite o site: Cinegrafista De Natureza www.havitarigamonti.blogspot.com.

(15) Samuel Albernaz. (samuel.albernaz@gmail.com domingo, 15 de junho de 2008 18:25)
Parabenizo o autor, professor Osmar Pires, pelo artigo Fica sujo? e o Diário da Manhã por oportunizar a publicação sobre este assunto.
Samuel Albernaz – administrador, bacharel em Administração e Economia pela UCG, pós-graduado em Políticas Públicas pela UFG, diretor do Conselho Federal de Administração.

(14) Renato Barbieri (vg_renato@terra.com.br domingo, 15 de junho de 2008 10:59)
Parabéns ao Diário da Manhã pela publicação do artigo, lúcido e corajoso, intitulado Fica sujo?, do articulista Osmar Pires. Acrescento ainda que a seleção oficial de filmes do Fica está totalmente viciada, pois só entram filmes estrangeiros e goianos. Logicamente que todos esses devem estar presentes, mas a mostra está longe de ser significativa do que é produzido no Brasil em termos de cinema/vídeo ambiental.
Renato Barbieri – cineasta e produtor da Videografia – Brasília/DF, formado em Psicologia pela PUC/SP, autor de extensa filmografia/videografia laureada com 23 prêmios no Brasil e no exterior – nove prêmios no Festival de Cannes de 1999 para Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás e Prêmio Internacional de Finalização da OCIC para Malagrida, 2001.

(13) Naim Freitas (cortaporta@yahoo.com.br sábado, 14 de junho de 2008 19:58)
Osmar Pires, parabéns e muito obrigado pelo artigo Fica sujo? Além de ser útil para o meu trabalho de educador (e talvez diretor de escola em 2009), é oportuno em se tratando de FICA, pois a grande maioria da população goiana não sente nem de longe os efeitos deste festival no que tange à questão ambiental.
Fico pensando o que fazer ou dizer aos nossos alunos de periferia sobre um assunto aparentemente secundário – meio ambiente – ante problemas estruturais como alimentação, emprego e saúde. Temos alguns textos, brinquedos , jogos e livros que ajudam na reflexão do assunto, mas a escola precisa romper suas práticas repetidas e conhecidas de leitura oral e escrita e partir para a prática e essa ação ter respaldo contínuo dos meios de comunicação, como uma forma de mapear a evolução das iniciativas acadêmicas do ensino fundamental e destacá-los.
Áudio e vide, palestras e práticas presenciais nas escolas, seriam o ideal para que aquietemos nossas libidos na execução dos projetos socioculturais promovidos pelas entidades públicas e internalizemos o compromisso para com o futuro e a saúde de nossa gente.
Naim Freitas – professor de ensino fundamental da rede pública estadual de Goiás.

(12) Josias Dias da Costa (josias.mineirense@gmail.com sábado, 14 de junho de 2008 14:47)
Muito grato ao Diário da Mahã pela publicação do belo e instigante artigo Fica sujo?, de autoria do articulista Osmar Pires.
Josias Dias da Costa – monge do Mosteiro São Francisco em Mineiros/GO.

(11) Milton Ferreira Nunes (notlim9@hotmail.com sábado, 14 de junho de 2008 12:47)
Achei mui oportuno o artigo relacionado ao FICA, do prof. Osmar Pires. Parabéns ao DM por contar no seu quadro de articulista com uma pessoa de grandes conhecimentos na área da ecologia e do meio ambiente.
Milton F. Nunes – jornalista d’O Povo de Goiás – um jornal com tiragem de 7.500 exemplares no sudoeste www.opovogoias.com.br.

(10) Coronel Almeida (coronel.almeida@gmail.com sábado, 14 de junho de 2008 11:40)
Sr. Osmar Pires, parabéns pelo artigo Fica sujo?. Goiás precisa de homens de coragem. Às vezes, as pessoas não estão preparadas para isso: o que ouvir, o que precisa ser dito. Daí a fomentação dos não pensadores.
Mas, gostaria de poder publicar o vosso artigo ou outro em nossa REVISTA FORÇA, órgão de divulgação da Associação dos Policiais e Bombeiros Militares de Goiás, a ser veiculada em julho, quando do aniversário de 150 anos da PM-GO.
Atenciosamente,
Coronel Almeida – Associação dos Policiais e Bombeiros Militares de Goiás.

(9) Cristiane Prizibisczki (editor@oeco.com.br terça-feira, 13 de junho de 2008, disponível em:<http://arruda.rits.org.br/oeco/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=6&pageCode=162&date=currentDate&contentType=html>.
A história do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental sempre foi acompanhada por um desafio inglório, o de não apenas reproduzir (ou reduzir-se) o discurso dominante de apropriação das questões ecológicas unicamente para efeito de marketing.
Ao longo de suas dez edições, o objetivo de promover a cultura cinematográfica para a defesa do meio ambiente muitas vezes não foi alcançado, seja por fragilidade da própria organização ou porque a dicotomia que ainda existe no Brasil entre cultura e economia, política e meio ambiente, por exemplo, foi evidenciada.
Como falar de preservação se, nas primeiras edições do evento, não havia coleta de lixo eficiente e o acúmulo de detritos e outros materiais se tornou um sério problema para a cidade – e um inconveniente para os turistas? Ou como suplantar a contradição de que o festival é realizado no coração de um bioma reduzido de forma avassaladora e em uma cidade que foi parcialmente destruída em 2001 por uma enchente agravada pelo desmatamento das cabeceiras do Rio Vermelho?
A resposta para tais questões certamente não é simplista. Como também não são as ações que tiveram de ser tomadas – e ainda terão de ser – para conter ou evitar os efeitos da interferência do homem no meio ambiente local.
No entanto, apesar desta cena, digna de filme de terror, muitas conquistas também foram incorporadas à história do FICA: a implantação do Parque Estadual Serra Dourada, em 2003, o lançamento do programa “Fica Limpo” – um mutirão de limpeza que se forma durante o evento – e a descentralização de ações de educação ambiental certamente estão entre elas.
Em 2008, ao completar 10 anos, o FICA ainda terá de somar à sua balança de resultados positivos e negativos um novo fato: a recente extinção da Agência Ambiental de Goiás, que antes tinha vida própria, mas foi incorporada definitivamente à Secretaria Estadual do Meio Ambiente.
Para Osmar Pires Martins Júnior, engenheiro agrônomo e presidente da Agência entre 2003 e 2006 – que na última quinta-feira destrinchou os problemas e desafios do FICA em artigo publicado no jornal goianiense Diário da Manhã –, a pergunta que o Festival terá de responder não é mais somente relacionada à qualidade dos filmes exibidos, mas sim se o “cinema ambiental” continuará a ser uma palavra composta ou se será reduzido ao vocábulo simples “cinema”.
Cristiane Prizibisczki - jornalista d’O Eco - site de jornalismo e meio ambiente feito pela “Associação O Eco”, ONG sem fins lucrativos criada por Manoel Francisco do Nascimento Brito Filho, Marcos Sá Corrêa e Sérgio Abranches; foi repórter do Portal e Revista Imprensa e free-lance do UOL e Editora Abril.

(8) Denize Teixeira Martins (denizetm@gmail.com sexta-feira, 13 de junho de 2008 07:02)
Parabéns ao articulista Osmar Pires pelo artigo Fica sujo?, publicado pelo Diário da Manhã, na edição do dia 12 último.
Somos agraciados por termos um guardião ambiental entre nós, que sempre atento aos desmandos dos políticos e de alguns segmentos da sociedade, que no meu entendimento, só se preocupam com os seus interesses. Nos congratulamos com o DM e sua equipe de articulistas, do quilate do prof. Osmar. Continue sempre dando sua contribuição na conscientização ambiental, para que nós e nossos filhos vivamos num mundo melhor.
Denize T. Martins – Funcionária Pública Estadual de Goiás.

(7) Ivanilton Oliveira (oliveira@iesa.ufg.br quinta-feira, 12 de junho de 2008 21:26)
Gostei muito do texto do articulista Osmar Pires, da crítica que apresenta e da reflexão que suscita no artigo Fica sujo? Está mais do que na hora de eventos dessa natureza propiciarem uma mudança de atitudes na sociedade. Vejo isso claramente no dia-a-dia de um instituto como o IESA, que leva o termo "ambiental" no próprio nome, e ainda assim está longe de ser um exemplo de instituição "ambientalmente consciente".
Pior ainda é a situação da UFG como um todo, que desperdiça recursos (papéis, copos descartáveis, água, energia etc.) como se não fosse dela a necessidade de criar um exemplo - em especial para os quadros que forma, que vão gerar opinião ou mesmo responder pelas políticas públicas e a ação social organizada daí em diante. Tomara que algo realmente mude, a bem da sustentabilidade do planeta.
Ivanilton José de Oliveira – professor doutor, Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG).

(6) Leda Selma (poetaledaselma@hotmail.com quinta-feira, 12 de junho de 2008 19:32)
O artigo Fica sujo? é por demais oportuno e lúcido; bem retrata o abismo entre o "discurso" e a realidade, deixando à vista as contradições, alegorias e contra-sensos que permeiam as propostas do FICA.
Parabéns ao DM por oportunizar ao autor levantar questões de tamanha importância. Retornei a este veículo (DMRevista, aos sábados), após um ano e meio de "férias". É muito bom fazer parte de uma equipe de articulistas e cronistas do porte de Osmar Pires.
Lêda Selma – poeta, escritora da Academia Goiana de Letras (AGL) articulista do Diário da Manhã.

(5) Mara Emilia (mara.Emilia@gmail.com quinta-feira, 12 de junho de 2008 18:40)
Prof. Osmar Pires, parabéns ambientais com caráter político, porque, se não agirmos assim, vamos continuar praticando apenas o discurso (vazio e eleitoral) da sustentabilidade.
Mara Emília – Goiânia/GO.

(4) Brasigois Felício Carneiro (brasigoisfelicio@hotmail.com quinta-feira, 12 de junho de 2008 16:47)
O articulista Osmar Pires, pela lucidez do texto Fica sujo? está certo em sua denúncia: o Fica ficando sujo, e nada fazendo pelo meio ambiente sequer da cidade e da região onde se realiza, para que vem a servir, a não ser para a gastança de dinheiro público em jantares e coquetéis?
Brasigois Felício – Escritor, membro da Academia Goiana de Letras (AGL) e da União Brasileira de Escritores – Seção Goiás (UBE/GO), articulista do Popular.

(3) Vania Ferro (vania_ferro@hotmail.com quinta-feira, 12 de junho de 2008 11:31)
Parabéns ao Diário da Manhã pela publicação do artigo Fica sujo?, do articulista Osmar Pires. Enviei este artigo para os membros do Fórum Permanente de Cultura, que são as pessoas diretamente relacionadas ao assunto, que devem fazer este tipo de questionamento, que cobram posturas e atitudes no meio cultural. Muito oportuna a discussão levantada pelo prof. Osmar Pires.
Estive no último sábado do Fica do ano passado, pensando ver algo interessante. Que decepção! As salas dos filmes vazias. As mostras de artes plásticas deixavam a desejar. Amontoadas na praça principal estavam pessoas que não tem nada com este "tipo de cultura". Voltei logo ao chegar, pois não dava para andar naquela cidade, muiiita gente. E o que mais incomodava, o som altíssimo!
Vânia Ferro – artista plástica e escultora, vice-presidenta da Associação Goiana dos Artistas Visuais.

(2) Emmerson Kran (conexaoambiental@hotmail.com quinta-feira, 12 de junho de 2008 09:49)
Bom artigo. Semana passada, dois convidados (Brasigois Felício e Eládio Teles) participaram do programa Conexão Ambiental, da Rádio Difusora, pra discutir arte e meio ambiente e, claro, o Fica foi assunto da discussão.
Lembro-me das primeiras edições do Fica que participei. Fiquei chocado. Mas, pensando bem, já que em termos de política não deve esperar muita coisa, resolvemos agir. Na época, apresentamos um projeto para mobilizar e envolver a população neste evento. Não fomos contemplados. Tempos depois "apareceram" projetos semelhantes ao nosso. Tudo bem.
Até hoje, segundo um dos entrevistados, o Fica não fez uma contribuição em termos de reflexão em torno da questão ambiental. Talvez por ser um evento pontual, não se compromete como deveria. Então vem a pergunta, cinema ambiental pra quê? Que fosse então um festival de cinema, sem conotação que engesse a partipação de outros temas! O produtor cultural Eládio Teles defende essa idéia. Segundo ele seria mais democrático.
Pra concluir, pergunto: um filme, um documentário que retrate, discuta e debata as questões da vida, do futuro, que denuncie em cores claras nossos problemas, tem preocupação ambiental como qualquer outro, ou não? Então, cinema ambiental não existe, ou tudo que existe pode ser chamado de cinema ambiental?
Emmerson Kran – jornalista, apresentador e coordenador programa Conexão Ambiental, Rádio Difusora.

(1) Marilda Shuvartz (shumabio@uol.com.br quinta-feira, 12 de junho de 2008 09:45 e publicado n’Opinião do Leitor, Diário da Manhã, 16/6/08, Opinião, p. 6)
Concordo plenamente com o articulista Osmar Pires, no artigo Fica sujo? que acabo de ler no DM on-line. O Fica tem que ser ambiental, na etimologia e na prática. Caso contrário, tornar-se-á apenas um evento que suja a bela cidade de Goiás. O seu papel é alertar, informar e conscientizar as população, visitantes e pessoas em geral. Estes objetivos se fazem necessários ontem, hoje e no futuro.
Conheço outros destinos turísticos da América do Sul. Na Patagônia, onde estou de férias no momento, falta preocupação também com a relação entre as questões ambientais e o turismo. O que se vê é muito lixo, impactos ambientais e culturais...
Marilda Shuvartz – professora do ICB/UFG, doutora em Ciências Ambientais.